A hierarquia ética do Sistema Plantio Direto

Por Afonso Peche Filho, pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas - IAC

A hierarquia ética do Sistema Plantio Direto
Foto: Gabriel Rezende Faria/Embrapa Agrossivilpastoril

O Sistema Plantio Direto consolidou-se como uma das mais importantes estratégias de conservação do solo nos trópicos. Tradicionalmente descrito a partir de seus três pilares, ausência de revolvimento, cobertura permanente e rotação de culturas, o sistema costuma ser interpretado como um arranjo técnico destinado a melhorar a eficiência produtiva e reduzir perdas por erosão. Entretanto, à medida que se ampliam os desafios ambientais, climáticos e sociais que atravessam a agricultura contemporânea, torna-se evidente que o plantio direto não pode mais ser compreendido apenas como método agronômico. Ele é também um posicionamento moral diante da paisagem. E, como todo posicionamento moral, implica reconhecer prioridades, limites e responsabilidades. É nesse ponto que emerge a necessidade de discutir a hierarquia ética do sistema.

Toda hierarquia ética nasce da pergunta fundamental: o que não pode ser sacrificado? Em ambientes agrícolas, a resposta conduz inevitavelmente ao reconhecimento de que a produção depende de bases biofísicas que antecedem o cálculo econômico. O solo vivo, a água funcional, a biodiversidade ativa e a estabilidade climática local não são acessórios do processo produtivo; são sua condição de possibilidade. Assim, o primeiro nível da hierarquia ética do plantio direto reside na preservação e na promoção da vida do solo. A macro e a microbiota, a formação de agregados, a construção de poros, a ciclagem biogeoquímica e a capacidade de autorregulação precisam ser tratados como patrimônios inegociáveis. Nenhum ganho de curto prazo justifica sua deterioração.

Em seguida, aparece o plano hidrológico. A agricultura ocupa vastas superfícies do território e, por isso, determina como a água circula, infiltra, evapora ou escorre. Um plantio direto eticamente orientado compreende que cada talhão participa de uma bacia hidrográfica e que o manejo local produz consequências coletivas. A redução do escoamento superficial, o aumento da infiltração e a proteção de nascentes deixam de ser metas secundárias para se tornarem deveres estruturantes. Produzir transferindo sedimentos e contaminantes para rios e reservatórios representa falha ética, mesmo que a lavoura individual apresente bons indicadores de rendimento.

O terceiro nível refere-se à estabilidade no tempo. A ética do plantio direto exige pensar em décadas, não em safras isoladas. Rotação real de culturas, diversificação biológica, sistemas radiculares complementares e cobertura qualificada configuram investimentos na resiliência do agroecossistema. A pergunta orientadora deixa de ser apenas “quanto produz? ” e passa a incluir “por quanto tempo conseguirá produzir sem colapsar? ”. Trata-se de um deslocamento profundo: da maximização imediata para a continuidade funcional.

Somente após garantidos esses patamares é que a eficiência econômica encontra seu lugar legítimo. Rentabilidade, competitividade e otimização operacional permanecem fundamentais, mas subordinadas aos limites impostos pela integridade ecológica. O lucro passa a ser entendido como resultado da saúde do sistema e não como justificativa para sua simplificação extrema. Essa inversão de lógica redefine a própria noção de sucesso agrícola.

Por fim, situam-se as conveniências circunstanciais: decisões emergenciais, adaptações logísticas, escolhas motivadas por pressões momentâneas de mercado. Elas são admissíveis, desde que não ultrapassem as fronteiras estabelecidas pelos níveis superiores. A hierarquia ética funciona, portanto, como um mecanismo de contenção de excessos, lembrando continuamente que nem tudo o que é possível é aceitável.

Adotar essa perspectiva transforma o Sistema Plantio Direto em uma verdadeira engenharia de responsabilidade territorial. O agricultor deixa de ser apenas gestor de culturas e passa a atuar como guardião de processos ecológicos que sustentam a vida coletiva. A técnica ganha densidade política, e o manejo cotidiano converte-se em ato de cidadania ambiental.

Em um tempo marcado por mudanças climáticas, degradação de recursos e tensões sociais crescentes, a consolidação dessa hierarquia ética não é luxo conceitual, mas requisito de sobrevivência. O futuro do plantio direto dependerá menos de novas máquinas ou insumos e mais da capacidade de reconhecer que a produtividade duradoura nasce do respeito às ordens da vida. Onde a ética orienta a técnica, a paisagem responde com permanência.