20º ENSPD e 3º EMSPD consolidam SPD como base para Agricultura Regenerativa
16-07-2026
Da Redação FEBRAPDP
O 20º Encontro Nacional do Sistema Plantio Direto (ENSPD) e o 3º Encontro Mundial do Sistema Plantio Direto (EMSPD) chegaram ao fim na última quinta-feira, dia 9 de julho, com um grande consenso: não há Agricultura Regenerativa sem o Sistema Plantio Direto bem realizado, com todos os seus princípios aplicados em sua plenitude. Os eventos reuniram 458 participantes durante três dias, em Brasília e online. Ao todo, foram mais de 50 palestrantes, 96 trabalhos científicos apresentados e 16 patrocinadores, com o apoio de cinco instituições.
Na avaliação dos organizadores e participantes, o principal destaque dos dois eventos foi a consolidação do conceito de que a Agricultura Regenerativa encontra no Sistema Plantio Direto sua base técnica e científica indispensável.
Maira Lelis, presidente da Federação Brasileira do Sistema Plantio Direto (FEBRAPDP), destacou a importância do evento para reafirmar esse conceito: "O grande destaque foi a capacidade de reunir diferentes gerações e instituições em torno do mesmo propósito, de fortalecer o Sistema Plantio Direto como base da Agricultura Regenerativa. O evento mostrou que o Sistema Plantio Direto evolui de uma técnica conservacionista para um modelo de produção capaz de conciliar produtividade, rentabilidade e sustentabilidade, sempre fundamentado em ciência, inovação e experiência dos produtores."
Jônadan Ma, presidente da Comissão Organizadora e diretor da FEBRAPDP, complementou: "O principal destaque desses dois eventos, sem dúvida alguma, foi o conceito aplicado da Agricultura Regenerativa com base no Sistema Plantio Direto. Isto é, não existe Agricultura Regenerativa sem Sistema Plantio Direto. Esse foi um destaque evidente, patente e claro a todos. Que quando se fala em Agricultura Regenerativa não há como não falar do Sistema Plantio Direto bem realizado, bem feito, com todos os seus princípios."
Marie Bartz, presidente da Comissão Técnico Científica do evento e da FEBRAPDP, reforçou essa visão ao destacar que o workshop sobre agricultura regenerativa foi "um momento de posicionamento e reflexão" que ajudou a reafirmar que, no Brasil, "a agricultura regenerativa encontra no Sistema Plantio Direto, quando realizado em sua plenitude, uma base técnica, científica e histórica muito sólida."
Ela desta que as principais reflexões desse debate estarão reunidas na Carta de Brasília, que será divulgada na próxima semana. “Portanto, ainda não queremos antecipar todo o seu conteúdo, porque ela merece uma divulgação própria e especial”.
Ciência e prática em diálogo permanente
A programação do evento foi estruturada para integrar o conhecimento acadêmico à realidade do campo, com pesquisadores apresentando dados científicos e produtores compartilhando resultados práticos de suas propriedades. Os 50 palestrantes foram divididos em três painéis ao longo dos três dias de evento, com alguns painéis contando com duplas de apresentadores que compartilharam a experiência técnica da pesquisa com as experiências de implantação nas propriedades, situadas em diferentes regiões do Brasil.
"O formato do evento, o formato do encontro foi maravilhoso. Onde foram expostos dados científicos, foram colocadas as bases conceituais de vários temas, de vários componentes desse sistema, e ao mesmo tempo foi corroborado com o resultado prático dos produtores", avaliou Ademir Calegari, consultor especialista em Sistema Plantio Direto. "Foi muito relevante e deu uma amplitude muito grande."
Marie Bartz destacou também que essa integração foi intencional: "Em grande parte dos painéis, procuramos fazer essa dobradinha entre pesquisadores, técnicos, consultores e agricultores. Não queríamos apenas apresentar resultados científicos, nem somente relatos de experiências. Queríamos colocar esses conhecimentos para conversar. E isso funcionou muito bem, porque quem estava no evento pôde compreender não apenas o que fazer, mas por que fazer, como implementar e quais dificuldades são encontradas no campo."
O evento também contou com a apresentação de 96 trabalhos científicos e ofereceu duas opções de visitas técnicas (às unidades Cerrados e Hortaliças, da Embrapa), cada uma com mais de quatro estações evidenciando as práticas desenvolvidas e seus principais resultados voltados à saúde do solo e à economia.
Maira Lelis avaliou positivamente o balanço qualitativo do evento: "O balanço é extremamente positivo. Tivemos uma participação expressiva de pesquisadores, de empresas, de representantes de diversas instituições, demonstrando a importância desse evento e a importância de divulgar as boas práticas dentro das propriedades. E, qualitativamente, o nível técnico das palestras e dos debates foi excepcional. Foi uma intensa troca de conhecimento, de soluções, de percepção do produtor no campo, de percepção da pesquisa que agrega valores na nossa produtividade."
Desafios superados e união de esforços
A realização do evento ocorreu em um contexto econômico desafiador, com limitações de patrocínios e mudanças de espaço, o que exigiu adaptações e contingenciamento de custos.
"Tivemos desafios esse ano pela conjuntura econômica do país, pelo setor que o agro enfrenta, as dificuldades. No entanto, nós somos resilientes, o Agro sempre encontra o seu caminho e conseguimos realizar o evento com muito sucesso no sentido público e principalmente no sentido de conteúdo técnico, científico e prático", avaliou Ma.
Marie Bartz revelou que, a pouco mais de um mês do evento, "enfrentávamos limitações de patrocínios, afetando o panorama financeiro, mudanças de espaço e muitas incertezas. Houve momentos em que ficamos verdadeiramente preocupados com o que conseguiríamos entregar."
Mesmo diante das dificuldades, a equipe não desistiu e, segundo Bartz, "não deixamos a peteca cair". A coordenação central da comissão organizadora — Jônadan Ma, Maira Lelis, José Guilherme Brenner, Ronaldo Trecenti, Jeankleber Bortoluzzi, Marie Bartz e Rafael Fuentes — trabalhou intensamente buscando alternativas.
Para Bortoluzzi, gerente administrativo e de projetos da FEBRAPDP, o balanço final foi positivo: "Considerando o momento atual pelo qual o agro está passando, ficamos muito satisfeitos com o balanço do evento, que nos surpreendeu positivamente. Apesar de alguns ajustes necessários, foi possível manter a grade de palestras originalmente planejada, e um público altamente qualificado se manteve presente durante os três dias, podendo aproveitar todo o conhecimento gerado e trocar informações diretamente com os palestrantes, que permaneceram no local após suas apresentações e ficaram disponíveis para contato com o público durante os intervalos."
Ele também destacou a satisfação dos expositores: "Outro ponto que se destacou foi a satisfação dos expositores em participar das palestras e em receber os congressistas, que circularam pela área de exposição nos momentos de intervalo, gerando boas oportunidades de negócios."
José Guilherme Brenner, vice-presidente da FEBRAPDP no Distrito Federal, avaliou que o encontro "teve um grupo representativo de produtores, de consultores, pesquisadores e, sem dúvida, acho que o objetivo do encontro, que foi essa difusão da tecnologia entre formadores, direcionadores das práticas agrícolas, foi muito interessante e atingiu o objetivo a que se propôs o encontro."
Visão internacional: SPD como ferramenta essencial
A presença de representantes de diversos países e o intercâmbio de experiências foram outro ponto de destaque do evento, evidenciando que o Sistema Plantio Direto é uma solução reconhecida globalmente para desafios comuns.
Emilio Gonzalez, da Federação Europeia de Agricultura Conservacionista (ECAF), avaliou que o principal destaque do evento "foi a capacidade de demonstrar que o Sistema Plantio Direto deixou de ser apenas uma técnica de manejo do solo para se tornar a base de um sistema produtivo integrado."
Segundo Gonzalez, o encontro evidenciou "por meio da experiência do Brasil e de outros países, que seu verdadeiro potencial surge quando é combinado com cobertura permanente do solo, diversificação de culturas, inovação tecnológica, conhecimento científico e forte participação dos produtores."
O representante europeu também ressaltou a importância do intercâmbio internacional: "O intercâmbio internacional confirmou que esse sistema constitui uma ferramenta essencial para enfrentar desafios comuns, como a degradação do solo, a escassez de água, o aumento dos custos, as mudanças climáticas e a necessidade de manter a rentabilidade da atividade agrícola."
Sobre o legado internacional dos eventos, Gonzalez afirmou que "o principal legado é uma visão internacional compartilhada: o Sistema Plantio Direto deve continuar evoluindo em direção a modelos agrícolas que, além de produzir alimentos de forma eficiente, regenerem as funções do solo, melhorem a resiliência climática e proporcionem benefícios ambientais verificáveis."
Ele também destacou que "a colaboração entre CAAPAS, ECAF e ACT é fundamental: devemos unir esforços, compartilhar conhecimentos e desenvolver projetos conjuntos em benefício do setor agrícola de nossas regiões e da sociedade em geral."
Legado e perspectivas para o futuro
Ao final dos trabalhos, os organizadores e participantes reforçaram que o legado do evento vai além dos três dias de programação, apontando caminhos concretos para a evolução do Sistema Plantio Direto no Brasil e no mundo.
Marie enfatiza que o Sistema Plantio Direto não é apenas não revolver o solo. É um sistema complexo, baseado na cobertura permanente, na diversificação de espécies, na rotação de culturas, na presença contínua de raízes vivas e no manejo integrado de todos os componentes da produção. “Quando reduzimos o Sistema Plantio Direto a uma operação de semeadura, perdemos grande parte daquilo que o torna verdadeiramente conservacionista e regenerativo”, diz ela.
Maira Lelis também destacou o legado do evento sob a perspectiva institucional e o papel do Brasil no cenário global: "O principal legado é o fortalecimento de um movimento coletivo em favor de uma agricultura cada vez mais sustentável, resiliente, baseado em ciência, em tecnologia, em práticas. E fica claro que o futuro exige integração entre todos esses campos, integração entre a pesquisa, entre assistência, entre produtores, entre instituições."
A presidente da FEBRAPDP também reforçou o protagonismo do país: "Esse evento realmente reafirma o protagonismo do Brasil dentro da produção agrícola, produção de alimentos."
Ela concluiu com uma visão prática para os produtores: "Para os produtores, a gente amplia o nosso acesso, conhecimento em tecnologia para que torne o nosso sistema mais eficiente. E o que muda é ter a eficiência e a consolidação do verdadeiro Sistema Plantio Direto."
Para Jônadan Ma, "o legado que fica para o Sistema Plantio Direto e para a Agricultura Regenerativa no Brasil é que realmente temos aí agora um desafio muito grande de trabalhar na sedimentação de todos esses conceitos. Temos muito trabalho técnico, prático, efetivo à frente, com todos os desafios pertinentes à atividade, às tecnologias, à estrutura, às conjunturas de cada solo, de cada região, de cada país."
O diretor concluiu com uma visão de continuidade: "O que mudou daqui pra frente é que realmente a gente percebe que o que vale mesmo é o conteúdo técnico, o que vale é o conhecimento sendo praticado, sendo demonstrado, sendo compartilhado. Práticas sustentáveis, práticas regenerativas, práticas conservacionistas. Tudo isso junto está construindo o futuro, está melhorando realmente o país, está mudando a agricultura, está desenvolvendo muito mais os nossos produtores."
Marie Bartz reforçou a necessidade de expandir as fronteiras do Sistema Plantio Direto: "O Sistema Plantio Direto deve avançar nas culturas anuais, mas também na horticultura, na produção orgânica, nos sistemas irrigados, na integração lavoura-pecuária, nas culturas perenes e em outras cadeias produtivas. Não há limites para a adoção dos princípios do Sistema Plantio Direto."
Ela também destacou os desafios que ficam para cada segmento: "Para os produtores, permanece o desafio de adequar o sistema e aplicar seus princípios de maneira que atenda às suas demandas e realidade. Para pesquisadores, técnicos e consultores, fica a responsabilidade de produzir conhecimento conectado com os problemas reais do campo. Para as instituições, fica o compromisso de criar condições, políticas e articulações que permitam que esse conhecimento alcance mais pessoas."
"Acima de tudo, o evento nos relembrou que não existe Agricultura Regenerativa sem regenerar e conservar o solo. E não é possível fazer isso apenas com discursos, mas com conhecimento, diversidade, raízes, cobertura, manejo adequado e pessoas comprometidas em cuidar desse patrimônio."