Agricultura regenerativa é aliada contra a seca
19-01-2026
Por Fernanda da Veiga*/Correio do Povo
No campo, quando se depende do clima, muitas vezes o céu promete e não cumpre as expectativas dos agricultores. A cada período prolongado de estiagem ou até de enchentes extremas, perdem-se lavouras inteiras. No caso da seca, há recursos que os produtores podem lançar mão para minimizar os prejuízos e garantir que a plantação fique mais resistente em dias seguidos sem água.
Quando demora muito a chover, o solo responde, dependendo do que foi feito previamente. No chão das lavouras, há uma história anterior à semeadura e que continua depois da colheita. “O solo é o nosso maior reservatório de água”, afirma Paula Hofmeister, coordenadora da Comissão de Meio Ambiente da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul). A frase resume um fenômeno do campo: a água que sustenta a lavoura nem sempre depende da próxima chuva, mas do que o solo consegue guardar quando ela vem.
Nos últimos anos, o Rio Grande do Sul enfrentou uma sequência de estiagens que comprometeu safras, reduziu renda e alterou o planejamento agrícola. Estimativas do Departamento Econômico da Farsul indicam que as quatro grandes secas recentes representaram perdas equivalentes a cerca de meio Produto Interno Bruto (PIB) do Estado. O impacto aparece na quebra de produtividade, no endividamento crescente e na dificuldade de manter a atividade em regiões mais vulneráveis. Não é apenas um problema agronômico, é um problema estrutural.
É nesse cenário que práticas reunidas sob o conceito de agricultura regenerativa passaram a ocupar espaço real nas decisões do campo. Não como discurso, nem como solução definitiva, mas como tentativa concreta de ampliar a resistência das lavouras diante da irregularidade climática.
Água que não se vê
A agricultura regenerativa não depende de uma tecnologia isolada. Trata-se de um conjunto de práticas que reorganizam o funcionamento do solo para que ele infiltre melhor a água, reduza perdas por escorrimento superficial e mantenha umidade disponível por mais tempo. “Cada quilo de matéria orgânica pode representar entre 8 litros e 18 litros de água disponíveis para as plantas”, explica Jorge Lemainski, chefe-geral da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Trigo.
Essa água não aparece na superfície. Ela permanece nos poros do solo, protegida do sol e do vento. Em solos degradados, a chuva intensa escorre rapidamente. Em solos estruturados, ela se infiltra. Fica. É essa diferença que se manifesta quando a estiagem se prolonga.
Paula destaca que a resiliência hídrica não está ligada apenas ao volume de precipitação acumulado, mas à capacidade do solo de funcionar como um sistema ativo. “Quando falamos em agricultura regenerativa, estamos falando de devolver função ao solo”, explica. “Ele precisa infiltrar, armazenar, disponibilizar água e permitir que a raiz explore camadas mais profundas. Sem isso, a planta entra em estresse muito cedo”, afirma. Para ela, o manejo conservacionista atua como uma espécie de seguro invisível, que não elimina perdas, mas reduz drasticamente a vulnerabilidade das lavouras.
Lemainski explica que a profundidade radicular é um dos principais indicadores da capacidade de uma lavoura enfrentar o estresse hídrico.
A genética da cultura é a mesma. O que muda é o ambiente construído ao redor da raiz.
Essa construção exige correção química adequada, redução da compactação, rotação de culturas e cobertura vegetal contínua. Não é uma decisão de uma safra apenas. É um processo acumulativo, que exige repetição e paciência.
Área em que são praticados preceitos de agricultura conservacionista, como terraceamento, plantio direto e plantio em contorno | Foto: Luiz Henrique Magnante / Embrapa / CP
Quando a estiagem ensina
A mudança de manejo não veio por convencimento teórico. Em muitas propriedades, veio depois da perda. A sucessão de estiagens funcionou como um aprendizado imposto. Mateus Farias de Mello, extensionista da Emater/RS-Ascar, acompanha esse processo de perto.
“O agricultor percebe a diferença quando compara áreas lado a lado”, afirma. Segundo ele, talhões conduzidos com cobertura vegetal permanente, rotação de culturas e menor revolvimento do solo reagiram melhor nos últimos períodos secos. “Mesmo sem irrigação, essas áreas conservaram umidade por mais tempo. Não evitaram a perda, mas reduziram o impacto”, relata Mello.
Essa percepção se repete também entre produtores que adotaram sistemas regenerativos fora do circuito tradicional de grãos. No município de Taquara, na encosta da Serra, Mateus Germano Pezzi, produtor rural do Rancho do Cerrito, descreve a transição como uma resposta direta às limitações impostas pelo clima e pelo próprio solo da região. “A seca ninguém escapa”, afirma Pezzi. “A agricultura regenerativa não vai te salvar, mas ela pode te defender. Tu cria um ambiente mais resiliente”, resume. Em uma área de solo raso e pedregoso, a decisão de abandonar o revolvimento e manter cobertura permanente alterou a dinâmica da água na propriedade. “A gente percebe que a água infiltra mais. Antes, ela escorria. Agora, entra no solo e permanece.”
Segundo Pezzi, o efeito aparece principalmente nas estiagens curtas, cada vez mais frequentes. “Não resolve tudo, claro. Mas em veranicos de dez, quinze dias, a diferença é grande. A pastagem aguenta mais, o sistema não quebra tão rápido”, afirma. A experiência, segundo ele, não veio de uma cartilha pronta, mas da necessidade de manter a produção viável em um ambiente cada vez mais instável.
Produtores passaram a adotar sistemas fora do circuito tradicional para minimizar as perdas | Foto: Ground Picture Shutterstock / CP
Construir resistência
Entre as práticas mais associadas à agricultura regenerativa estão o sistema plantio direto tecnicamente bem executado, com a fundamental rotação e diversificação de culturas, o uso de plantas de cobertura no inverno, a adubação verde e a correção química do solo em profundidade. Técnicas mecânicas, como o plantio em contorno e o terraceamento, também contribuem para reduzir perdas de água e solo.
O plantio direto, apesar de amplamente difundido, nem sempre é aplicado de forma completa. “Existe uma diferença grande entre usar plantio direto e fazer plantio direto bem feito”, observa o chefe-geral da Embrapa Trigo, Jorge Lemainski. Sem diversidade de culturas e sem correção adequada do perfil do solo, o sistema perde eficiência.
Estudos técnicos conduzidos pela Embrapa e por centros de pesquisa em manejo conservacionista indicam que lavouras implantadas sobre solos bem estruturados, com rotação de culturas, cobertura permanente e maior teor de matéria orgânica, conseguem sustentar níveis de produtividade significativamente superiores em períodos de estresse hídrico. Em experimentos de campo realizados em áreas degradadas recuperadas com práticas conservacionistas, foram observados ganhos de produtividade que chegaram a 40% ou mais, quando comparados a sistemas convencionais com solo exposto e baixo manejo. Esses resultados são atribuídos, principalmente, à maior capacidade de infiltração e retenção de água no perfil do solo, além do desenvolvimento radicular mais profundo. A diferença se torna ainda mais evidente em anos de chuva irregular, quando a média regional cai e as áreas melhor manejadas conseguem atravessar o veranico com menor perda de rendimento.
A leitura econômica dessa diferença também é destacada por Paula Hofmeister, coordenadora da Comissão de Meio Ambiente da Farsul. Segundo ela, o ganho não aparece apenas na colheita final, mas na previsibilidade do sistema. “O agricultor não pode depender de um clima que já não é confiável. Quando o solo responde melhor, ele ganha tempo, ganha estabilidade e consegue planejar”, afirma. Esse tipo de manejo reduz a exposição ao risco e ajuda a explicar por que áreas bem conduzidas atravessam períodos críticos com menor necessidade de intervenções emergenciais.
Setor deixou de faturar R$ 126,3 bi por falta de precipitação
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Devido às estiagens registradas entre 2020 e 2025, os produtores rurais gaúchos deixaram de faturar R$ 126,3 bilhões, segundo estimou a Farsul. Este valor movimentaria R$ 400 bilhões para a sociedade gaúcha, ou 49% do PIB do Estado. No período, a produção era estimada em 227 milhões de toneladas de grãos. No entanto, as colheitas atingiram apenas 178,47 milhões de toneladas.
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Em uma palestra, no fim do ano passado, o economista-chefe da entidade, Antônio da Luz, alertou sobre o tamanho das limitações que Rio Grande do Sul apresenta por causa dos repetidos períodos de seca, sem que haja estratégias de mitigação que façam frente ao problema.
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Segundo ele, o que o RS perdeu nos últimos cinco anos no agro encheria 851.847 carretas bitrem de 57 toneladas cada, que, enfileiradas tomariam 25.555 quilômetros.
*sob a supervisão de Karina Reif e Leandro Mariani Mittmann
Reportagem originalmente publicada no Correio do Povo