“Cobertura viva e palhada garantem a vida e a fertilidade dos solos”, destaca apresentação da Plataforma Colaborativa Sul
09-10-2026
Por Nágila Rodrigues, Embrapa Clima Temperado
Manter o solo coberto por vegetação viva ou palhada é uma das principais recomendações para reduzir os impactos das condições climáticas previstas para a safra 2026/2027. A orientação foi destacada por Ernestino Guarino, coordenador da Plataforma Colaborativa Sul, idealizada pela Embrapa, durante live realizada na manhã de sexta-feira (9), sobre recomendações técnicas para mitigar os efeitos do El Niño na agropecuária. “De forma geral, a principal sugestão e orientação que nós damos é, independente da cultura, que o solo esteja sempre protegido, coberto”, afirmou.
Segundo o coordenador, a cobertura do solo contribui para reduzir o impacto das gotas de chuva sobre a superfície, favorecer a infiltração da água e diminuir a velocidade do escoamento superficial. A prática também auxilia na regulação térmica do solo durante o verão, contribuindo para a conservação de suas características físicas e biológicas. “Com o solo sempre coberto, a gente reduz também garante uma regulação térmica do solo no período de verão”, explicou.
As recomendações integram o trabalho da Plataforma Colaborativa Sul, iniciativa que reúne unidades da Embrapa para desenvolver estratégias de enfrentamento aos efeitos de eventos climáticos adversos na agropecuária. A partir das experiências acumuladas desde 2024, a Plataforma elaborou uma nota técnica com orientações para auxiliar os produtores da região Sul do País no planejamento da próxima safra. O documento está disponível para consulta na internet.
Prevenção, mitigação e monitoramento
A nota técnica está estruturada em três diretrizes: prevenção, mitigação e monitoramento. A primeira envolve respeitar as janelas de semeadura indicadas pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), avaliar a contratação de seguros para a produção e escolher cultivares adaptadas às condições esperadas.
Para Garino, antecipar decisões é fundamental para reduzir a exposição aos riscos climáticos. “A prevenção antes do prejuízo” é uma das ideias centrais das recomendações apresentadas pelo coordenador, que também alertou para a importância de adequar os investimentos à realidade esperada para a safra.
Na etapa de mitigação, a orientação é reavaliar as decisões tecnológicas e os gastos com insumos de acordo com as expectativas de rendimento. O objetivo é evitar que os produtores mantenham níveis de investimento baseados exclusivamente na produtividade de safras anteriores, sem considerar as condições climáticas previstas.
A terceira diretriz é o monitoramento, que envolve acompanhar as condições meteorológicas e utilizar essas informações para orientar as decisões agronômicas ao longo do ciclo produtivo.“Tomar decisões agronômicas diárias, sempre amparadas em fontes oficiais e confiáveis de dados meteorológicos”, recomendou Garino.
Entre as fontes indicadas estão o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e a Embrapa.
Manejo de grãos exige atenção à chuva e à umidade
Para as culturas de grãos, as recomendações incluem a escolha de cultivares adaptadas às condições climáticas previstas. No arroz, a orientação é priorizar materiais com resistência ao acamamento - fenômeno em que as plantas tombam - e às doenças foliares. Também é indicado parcelar a adubação nitrogenada de cobertura, especialmente quando são utilizadas doses elevadas, para reduzir perdas de nutrientes.
A drenagem das áreas de cultivo também merece atenção. Segundo as recomendações apresentadas, é importante garantir que o excesso de água possa ser escoado rapidamente durante períodos de chuvas intensas.
Na soja, a indicação é utilizar densidades de semeadura médias a baixas, conforme as características da cultivar e do sistema produtivo, para reduzir o risco de estiolamento e acamamento. O manejo fitossanitário deve considerar as condições observadas na lavoura, evitando aplicações de agroquímicos baseadas exclusivamente em calendários predefinidos.
O planejamento da colheita também deve levar em conta as previsões meteorológicas, buscando reduzir a possibilidade de coincidir com períodos de chuva durante a maturação dos grãos.
Na fruticultura, cobertura vegetal e drenagem são fundamentais
Para a fruticultura, as recomendações destacam o manejo das copas para favorecer a circulação de ar e diminuir a pressão de doenças. A manutenção da cobertura vegetal do solo durante todo o ano também é apontada como uma medida importante.
Outro cuidado é verificar as condições dos sistemas de drenagem dos pomares, identificando áreas críticas e avaliando a necessidade de novos drenos para evitar o acúmulo excessivo de umidade.
As orientações reforçam a importância de adaptar o manejo às características de cada cultura e às condições encontradas na propriedade, considerando os riscos associados ao excesso de chuva e à umidade elevada.
Bacia hidrográfica como unidade de planejamento
Além das práticas adotadas em cada lavoura, Guarino destacou que as medidas de conservação do solo e de manejo da água precisam considerar o território de forma integrada. Isso significa que o planejamento deve ultrapassar os limites individuais das propriedades rurais. “Todas as ações de conservação e uso do solo também devem ser pensadas em toda a paisagem, em toda a bacia hidrográfica”, afirmou.
Para o coordenador, essa abordagem exige planejamento de longo prazo e articulação das ações em diferentes áreas do território. “Usar a bacia hidrográfica como unidade de planejamento é o ideal”, ressaltou.
As recomendações da Plataforma Colaborativa Sul buscam apoiar os produtores na preparação para a safra 2026/2027, com medidas que envolvem conservação do solo, planejamento dos investimentos, manejo das culturas e acompanhamento das condições meteorológicas. A proposta é contribuir para a redução dos riscos climáticos e para a preservação do potencial produtivo das propriedades rurais.