Conservar o solo é preservar a vida, a água e o futuro dos territórios
17-04-2026
Por Maria Sonia Lopes da Silva, Manoel Batista de Oliveira Neto e Pedro Luiz de Freitas, pesquisadores da Embrapa Solos
No Brasil, o dia 15 de abril marca o Dia Nacional da Conservação do Solo, um momento de reflexão sobre o uso sustentável e responsável desse recurso essencial. Preservar o solo é assegurar o futuro da vida, reforçando seu caráter finito e sua importância estratégica para a sustentabilidade. Mais do que suporte à produção agrícola, o solo constitui a base da vida, da água e do equilíbrio dos ecossistemas.
A data comemorada esta semana homenageia Hugh Hammond Bennett, referência mundial na defesa da adoção de práticas conservacionistas. Seu trabalho evidenciou, no início do século XX, os impactos da degradação do solo e a urgência de políticas e ações voltadas ao seu uso sustentável.
Em solo degradado não há água, alimento ou vida. Esse recurso natural exerce múltiplas funções ecossistêmicas como sustentar plantas, armazenar nutrientes, regular o ciclo da água e abrigar uma ampla diversidade de organismos, o que reforça a necessidade de seu cuidado contínuo. Estratégias como desmatamento e queimadas, o uso excessivo de maquinário pesado, o preparo intensivo do solo, o cultivo contínuo sem rotação de culturas e a ausência de cobertura vegetal, entre outras práticas de manejo inadequado, não devem ser adotadas e precisam ser combatidas, pois intensificam processos de degradação, como erosão, compactação, perda de fertilidade e desertificação.
Esses processos comprometem a produtividade agrícola, afetam os recursos hídricos e colocam em risco a segurança alimentar. Em regiões mais vulneráveis, como o Semiárido brasileiro, os impactos são ainda mais intensos, exigindo práticas específicas de conservação. Nesse contexto, conservar o solo é resistir, produzir e viver com dignidade, uma realidade vivida por milhões de pessoas que dependem diretamente da terra.
Práticas como o plantio em curvas de nível, a manutenção da cobertura vegetal, os sistemas com viés agroecológico e o uso de tecnologias sociais de captação e estocagem de água são fundamentais para reduzir a erosão e aumentar a infiltração hídrica. Associadas ao conhecimento tradicional das comunidades, essas práticas fortalecem sistemas produtivos mais resilientes e adaptados às condições locais. Solo conservado significa água armazenada, alimento garantido e territórios fortalecidos.
Pesquisa em solos e o papel da Embrapa na sustentabilidade dos territórios
A pesquisa em solos no Brasil tem papel estratégico para o desenvolvimento agrícola, a conservação ambiental e a sustentabilidade dos territórios, em um país marcado por grande diversidade climática, geológica e de usos da terra.
Nesse contexto, desde a sua criação a Embrapa e suas instituições parceiras desempenham papel fundamental. Por meio de suas unidades descentralizadas, a instituição contribui de forma decisiva para o conhecimento, manejo e conservação dos solos brasileiros, desenvolvendo estudos que vão desde a identificação e classificação até a proposição de tecnologias voltadas ao uso sustentável da terra.
A Embrapa Solos é uma dessas unidades, reconhecida como referência nacional e internacional em mapeamento de solos, avaliação da aptidão agrícola, dinâmica de nutrientes, carbono no solo e estudos de processos de degradação, como erosão e salinização, entre outras linhas de pesquisa. Esses conhecimentos orientam o uso adequado da terra e subsidiam ações de prevenção à degradação dos recursos naturais.
O centro de pesquisa e seus parceiros vêm desenvolvendo e aprimorando o Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (SiBCS), ferramenta essencial para padronizar a classificação e a interpretação da aptidão dos solos no país, apoiando o planejamento agrícola e ambiental. O sistema permite compreender potencialidades e limitações dos solos, orientando seu uso conforme sua capacidade produtiva.
Equipes de pesquisa vêm atuando no avanço de práticas e técnicas que respeitam os princípios do Sistema Plantio Direto e suas aplicações, como os sistemas integrados de produção (ILPF) e os Sistemas Agroflorestais (SAFs). Essas práticas otimizam o uso da terra ao conciliar a preservação ambiental com a produção de alimentos, contribuindo para a conservação do solo. Além disso, promovem o aumento da produtividade com menor impacto ambiental, favorecem o sequestro de carbono e auxiliam na adaptação às mudanças climáticas.
A Embrapa Solos também tem realizado estudos importantes de zoneamentos agroecológicos, que integram informações de solo, clima e relevo, para orientar o planejamento territorial. No Nordeste, a atuação da Embrapa Solos se dá por meio da Unidade de Execução de Pesquisa e Desenvolvimento de Recife (UEP Recife), cujas pesquisas nessa temática têm gerado importantes entregas aos gestores públicos, como o ZANE (Zoneamento Agroecológico do Nordeste), o ZAPE (Zoneamento Agroecológico de Pernambuco), o ZAAL (Zoneamento Agroecológico de Alagoas), ZonBarragem (Zoneamento Edafoclimático de Áreas Potenciais para Construção de Barragens Subterrâneas no Estado de Alagoas) e o ZON-PB (Zoneamento Pedoclimático da área de influência do Canal das Vertentes Litorâneas da Paraíba).
No Semiárido brasileiro, essas pesquisas ganham ainda mais relevância diante das condições climáticas adversas e da maior vulnerabilidade ambiental. As tecnologias e conhecimentos gerados apoiam práticas adaptadas de manejo da água, conservação da cobertura vegetal, uso de tecnologias sociais e sistemas produtivos resilientes, fortalecendo a convivência sustentável com o território.
Dessa forma, a pesquisa em solos tem contribuído para reduzir desigualdades sociais, ao reconhecer que os impactos das mudanças climáticas atingem de forma diferenciada os territórios. Ao oferecer soluções adaptadas a diferentes realidades, fortalece a resiliência dos sistemas produtivos e apoia decisões mais justas sobre o uso dos recursos naturais.
Solo, políticas públicas e futuro sustentável
Falar de conservação do solo é falar de futuro, especialmente no Semiárido, onde cada gota de água e cada centímetro de terra fazem a diferença na vida das famílias. A conservação do solo é um ato de responsabilidade coletiva, que articula ciência, saber local e ação do Estado na construção de territórios mais resilientes e sustentáveis.
Nesse sentido, as políticas públicas desempenham papel estruturante ao induzir práticas de uso e manejo sustentável da terra, integrar instrumentos de planejamento territorial e orientar investimentos em tecnologias adaptadas às diferentes realidades regionais. Programas como o PronaSolos (Programa Nacional de Levantamento e Interpretação de Solos do Brasil) representam um avanço estratégico nesse campo, ao fortalecer a base de informações adequadas para orientação do uso da terra em todo o Brasil, subsidiando políticas agrícolas, ambientais e de adaptação às mudanças climáticas.
Ao articular pesquisa, gestão pública e tomada de decisão, o PronaSolos contribui para reduzir desigualdades territoriais, ao ampliar a capacidade do Estado de reconhecer as diferentes potencialidades e vulnerabilidades dos solos no país. Isso é especialmente relevante no Semiárido, onde o planejamento baseado em evidências pode significar maior segurança hídrica, produtiva e alimentar.
Neste Dia Nacional da Conservação do Solo, celebramos a competência da ciência agronômica no Brasil que, no vis-à-vis entre ciência e campo, domou os desafios tropicais. Reforça-se a importância do fortalecimento de políticas públicas integradas e contínuas capazes de apoiar a adoção de práticas e técnicas conservacionistas, valorizar o conhecimento local e assegurar o solo como patrimônio estratégico, base da vida, da produção e do futuro das próximas gerações.