Manejo da biodiversidade funcional no Sistema Plantio Direto
31-12-2025
Por Afonso Peche Filho, pesquisador científico do Instituto Agronômico de Campinas (IAC)
Biodiversidade funcional é a diversidade de organismos e, principalmente, de funções ecológicas que sustentam o funcionamento do agroecossistema. No Sistema Plantio Direto (SPD), essa ideia ganha um sentido ainda mais concreto: o SPD não é apenas “não revolver o solo”, mas um arranjo de manejo que depende da vida do solo, da cobertura permanente e da diversificação de plantas para manter produtividade, estabilidade e resiliência. Em áreas sob SPD, biodiversidade funcional é o “sistema operacional” invisível que faz a palhada virar proteção, a raiz virar estrutura, e o solo virar ambiente capaz de infiltrar, armazenar e disponibilizar água e nutrientes.
No SPD, o solo passa a ser tratado como um habitat contínuo. A palhada na superfície e a menor perturbação física favorecem fungos, bactérias, actinomicetos, protozoários, nematoides, microartrópodes e macrofauna (como minhocas). Essa comunidade forma uma rede de decomposição e ciclagem de nutrientes que, quando bem estimulada, melhora a estabilidade de agregados, a porosidade, a infiltração e a supressividade a patógenos. É por isso que o SPD de alta qualidade não se sustenta com “cobertura qualquer”: ele precisa de diversidade de resíduos (qualidade e quantidade) e de diversidade de raízes (arquiteturas diferentes) para alimentar e organizar a biologia ao longo do tempo.
A biodiversidade funcional no SPD também se expressa como regulação do clima do solo. A palhada reduz amplitude térmica, diminui evaporação e protege contra o impacto direto da chuva, reduzindo selamento superficial e erosão. Esses efeitos físicos, porém, só atingem o máximo potencial quando a cobertura está associada a uma biologia ativa: resíduos com diferentes relações C/N, compostos lignificados e biomassa radicular renovada alimentam cadeias tróficas distintas, aumentando a eficiência da ciclagem e reduzindo perdas por lixiviação. Assim, biodiversidade funcional não é um “extra” no SPD; é o que transforma a técnica em sistema.
Um risco comum é confundir SPD com “monocultura em solo não revolvido”. Quando a rotação é curta, a palhada é insuficiente ou repetitiva, e a janela de cobertura viva é estreita, o sistema se empobrece funcionalmente. Nesse cenário, tendem a aumentar compactação superficial, presença de plantas espontâneas resistentes, pragas adaptadas e doenças favorecidas por desequilíbrios microbiológicos. O resultado é um SPD “de aparência”, que mantém a semeadura direta, mas perde a inteligência ecológica e passa a depender cada vez mais de intervenções químicas e correções pontuais.
Manejo da biodiversidade funcional no SPD significa planejar funções e não apenas espécies. O primeiro eixo é a diversificação por rotação e consórcios, buscando alternar grupos funcionais: gramíneas (alta produção de palhada e sistema radicular fasciculado), leguminosas (fixação biológica de nitrogênio e resíduos de decomposição mais rápida), brassicáceas (raízes pivotantes e efeitos biofumigantes em certos contextos), plantas de cobertura de ciclo curto para “tampar janelas” e espécies com alta capacidade de exploração de camadas mais profundas. A lógica é construir um “mosaico temporal” de raízes e resíduos que mantenha alimento e habitat para diferentes organismos durante todo o ano agrícola.
O segundo eixo é o manejo da cobertura como infraestrutura ecológica. A cobertura deve ser permanente, mas não necessariamente homogênea: pode alternar palhada densa em períodos críticos de erosividade e cobertura viva em janelas estratégicas para descompactação biológica, reciclagem de nutrientes e estímulo da biota. Aqui entram decisões práticas: altura e momento de dessecação/rolagem, escolha de espécies com arquitetura compatível com a semeadura, planejamento de massa de palha mínima para proteção (especialmente em regiões de chuvas intensas), e manutenção de diversidade de resíduos para favorecer decompositores distintos.
O terceiro eixo é a redução de perturbações que quebram a rede biológica. No SPD, o tráfego desordenado e o excesso de operações podem compactar e “simplificar” a estrutura, reduzindo poros biológicos e limitando raízes e macrofauna. Do mesmo modo, pulverizações repetitivas sem critério ecológico podem afetar inimigos naturais e, em alguns casos, alterar comunidades microbianas. Manejo funcional não é “não usar insumos”; é usar com critério e dentro de uma estratégia que preserve a estabilidade do sistema.
O quarto eixo é integrar o SPD à paisagem funcional. Faixas vegetadas, bordaduras floridas, matas ciliares, corredores e fragmentos próximos aumentam polinizadores e inimigos naturais, reduzem ventos, melhoram microclima e favorecem reequilíbrios biológicos. Mesmo em áreas de grãos, elementos lineares e pequenas áreas de refúgio podem ter grande efeito na regulação ecológica, desde que planejados para não competir com a operação agrícola e para oferecer recursos (néctar, pólen, abrigo) em momentos-chave.
Para tornar o manejo orientativo, é útil acompanhar indicadores simples e recorrentes: percentual de solo coberto, massa de palhada, presença de bioporos, resistência à penetração, infiltração, diversidade de plantas na rotação, sinais de atividade biológica (decomposição, minhocas, agregados estáveis), necessidade de aplicações corretivas ao longo do tempo e incidência de pragas/doenças. O objetivo é ver o SPD evoluir de “técnica de implantação” para “sistema ecológico de produção”, no qual a biodiversidade funcional opera como garantia biológica contra perdas, riscos e extremos climáticos.
Em síntese, manejar biodiversidade funcional no Sistema Plantio Direto é reconhecer que o solo não é suporte, mas organismo coletivo. Quanto mais diversificada for a base funcional, raízes, palhada, habitats, inimigos naturais e microbiota, mais o SPD cumpre sua promessa: conservar água e solo, reduzir erosão, estabilizar produtividade e construir, ano após ano, um ambiente produtivo com maior autonomia ecológica.