Pioneiros do SPD inspiram futuro da agricultura regenerativa

21-08-2026

Da Redação FEBRAPDP

O título do painel de abertura do 20º Encontro Nacional do Sistema Plantio Direto, ocorrido no mês de julho, em Brasília, trouxe uma pergunta que conduziu boa parte do evento: "Por que o SPD é a base da agricultura regenerativa?" Para começar a respondê-la, as três palestras iniciais iluminaram por diferentesu ângulos essa história. As falas de Franke Dijkstra, Richard Dijkstra e Manoel Henrique Pereira Jr. no painel de abertura do 20º ENSPD mostraram que o Sistema Plantio Direto é uma construção viva, que continua sendo escrita por aqueles que herdaram não apenas a terra, mas também o conhecimento, a ousadia e a persistência dos que vieram antes.

A primeira palestra, conduzida por Paulo Cesar Conceição, professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), campus de Dois Vizinhos, trouxe a reflexão: "O Sistema Plantio Direto sempre foi conservacionista e regenerativo?" Em seguida, vieram os testemunhos vivos. Relatos de uma construção que começou há mais de cinco décadas e que, longe de ser apenas memória, se revelaram profundamente atuais.

Richard Dijkstra, da Fazenda Frank'Anna, em Carambeí (PR), trouxe a palestra "Experiência do produtor - A vida ensinou", compartilhando a trajetória de seu pai, Franke Dijkstra, um dos pioneiros do SPD. Manoel Henrique Pereira Jr., da Fazenda Agripastos, em Palmeira (PR), palestrou sobre "Experiência do produtor - O legado de Nonô Pereira", em homenagem a seu pai (1939-2015). Mais do que narrar o passado, eles mostraram que os fundamentos estabelecidos por aqueles que ousaram fazer diferente continuam sendo a base para o futuro da agricultura.

 

"Uma andorinha só não faz verão"

"Há 50 anos, eu comecei com o plantio direto porque estávamos fazendo agricultura convencional, lavrando a terra e estava vendo que muitas terras iam rio abaixo, poluindo rios. E ali eu pensei, e se fizesse um plantio direto? Porque a semente cai da árvore e nasce no mato também. Então por que nós não copiamos a natureza e, copiando a natureza, nós observamos que a planta vai muito bem plantada direto no solo, fazendo um pequeno corte que facilita a germinação e a planta cresce tão bem ou até melhor. E a vida biológica do solo cresce também. Isso que é fundamental, porque a vida no solo é tudo para ter a fertilidade e a continuidade do sistema", disse Franke Dijkstra em participação especial.

Pioneiros nos primórdios do SPD. "Com o plantio direto, nada nasce sozinho", lembrou Franke Dijkstra

Ele também destacou o caráter coletivo da construção do SPD: "Com o plantio direto, nada nasce sozinho. Tudo depende de uma equipe. Um ajuda aqui, outro ajuda ali. São várias opiniões e o conjunto de boas ideias somam o sucesso do sistema. Isso aqui foi a grande solução. O Hans Peeten, o Nonô e o Bartz foram pessoas fundamentais no arranque do sistema de plantio direto no começo."

Franke ainda lembrou a resistência que enfrentaram: "Me chamaram de louco, mas de louco todo mundo tem um pouco. E as loucuras, eu acho que o homem tem que desafiar algumas coisas que todos acham comum, mas por quê? Por que ele está fazendo isso? E por que isso? E por que aquilo? Então você tem que desafiar. Isso aqui é fundamental em todos os sistemas."

Em sua fala, Richard Dijkstra abordou a ideia que sintetiza o espírito coletivo que construiu o Sistema Plantio Direto no Brasil: "Uma andorinha só não faz verão. Um pau de lenha só não pega fogo. Quanto mais lenha se colocar, mais forte é o fogo, melhor queima."

Richard recordou o cenário que motivou a busca por novas soluções: "Todos estávamos sofrendo com erosão, era gravíssimo o problema de erosão, principalmente aqui nas regiões culturais, mas no Brasil como um todo, erosão era algo que estava devastando a nossa agricultura."

Foi nesse contexto que produtores, pesquisadores e indústria se uniram. "Todos juntos estavam na busca de soluções para melhorar o sistema, para tornar o sistema mais eficiente, para melhorar a qualidade do plantio, o controle de ervas daninhas, tudo o que envolvia o sistema, adubação, fertilidade de solo, rotação de culturas", contou Richard.

Encontro de gerações: Richard e Franke Dijkstra

Para ele, o que fez a diferença foi a capilaridade do movimento: "Foi essa unidade que houve em torno do plantio direto onde todos os agricultores, aonde você ia, todos eles tinham alguma coisa, uma experiência a compartilhar, alguma frustração ou algum sucesso e isso fez com que o sistema desenvolvesse e crescesse e tornou o Brasil no modelo agrícola mais sustentável do mundo."

Richard destacou o papel fundamental dos pioneiros: "O papel importante do Bartz, do Nonô, e do Frank nesse processo todo, também Hans, foi de realmente sempre buscar levar essa capilaridade para que mais pessoas fossem contaminadas pelo plantio direto e adaptassem a tecnologia para realmente ter um sucesso maior."

Testemunhar essa história, para ele, foi um privilégio: "Testemunhar isso, para mim, foi um privilégio muito grande. Eu tive o privilégio de ver todo esse desenvolvimento, apesar de, quando eu era criança, eu ainda não tinha a noção da grandiosidade disso tudo, mas você sempre ouve coisas e grava. E essas histórias, esses acontecimentos, os principais fatos, eles estão todos gravados."

E essa história, segundo Richard, precisa ser contada e recontada: "Isso faz com que essa história seja contada e recontada em diversas línguas, em diversas vezes, para diversas pessoas. E isso vai fazer com que esse sistema cresça para diversos lugares."

 

O legado que se tornou celeiro do mundo

Manoel Henrique Pereira Jr., da Fazenda Agripastos, trouxe à tona a magnitude do que foi construído por seu pai e pelos demais pioneiros. "O Brasil é o maior exportador de agricultura conservacionista e sustentável do mundo, porque tem a mais extensa área agrícola no sistema de Plantio Direto na palha do planeta Terra."

Ele explicou o papel central da palha nesse sistema: "A palha é o instrumento fundamental para o sucesso desse sistema, é a palha que cobre o solo, evita a erosão, suprime as ervas daninhas, controla a insolação, retém umidade, gera matéria orgânica, sequestra o carbono e dá vida ao solo antes estéril e improdutivo. Sem a palha não existem Plantio Direto e nem o novo sistema regenerativo."

Manoel Pereira Jr. e Nonô Pereira no telão: legado e continuidade 

Manoel lembrou que o Plantio Direto completará 50 anos em 21 de novembro de 2026 em sua região. "Foi nessa data que o PD foi iniciado na Fazenda Agripastos e nos Campos Gerais do Paraná, no mesmo local onde houve a comemoração dos 25 anos em 2001."

Para ele, o sucesso do sistema se deve ao heroísmo dos pioneiros: "Tudo isso graças ao heroísmo dos pioneiros do Plantio Direto na palha, espalhados por todo o Brasil, que com sangue, suor e lágrimas romperam preconceitos e paradigmas ao desafiar a pesquisa e os antigos métodos de produção agrícola do país. Testemunhei a maioria dos fracassos e sucessos dessa odisseia até chegar aos dias de hoje em que o Brasil é o celeiro do mundo."

Como testemunha ocular dessa trajetória, ele trouxe números que impressionam: "Nos anos 70 e 80 nossa produtividade de soja era 2.600 kg/ha com 500 kg/ha de adubo fórmula na base, hoje nossa média é de 4.200 kg/ha com 350 kg/ha de adubo."

Manoel Pereira Jr. enfatiza necessidade da divulgação técnica correta de como se deve fazer o SPD

Manoel também fez um alerta sobre os desafios atuais: "Com relação ao SPD de hoje vemos uma grande dependência da política como um todo, desde o acesso ao crédito rural até a exportação dos grãos. Nossa entidade deve se dedicar também ao incentivo e busca de benefícios em prol da pesquisa e divulgação técnica de como se deve fazer o SPD corretamente. Existem muitas regiões em que o sistema não atinge seu máximo objetivo porque é mal utilizado e não se preocupam em fazer palhada para cobertura do solo. O agricultor precisa aprender a ter paciência e não cair nas armadilhas comerciais dos pacotes 'tecnológicos' que são empurrados goela abaixo no produtor."

 

Um fio condutor entre passado e futuro

Quem também acompanhou atentamente as palestras foi Marie Bartz, presidente da Comissão Técnico-Científica da FEBRAPDP e filha de Herbert Bartz (1937-2021), outro pioneiro. Para ela, as falas de Richard e Manoel ressoaram em três dimensões que se encontram.

"Como cientista, consigo reconhecer nos princípios construídos pelos pioneiros fundamentos que hoje voltam ao centro da discussão sobre saúde do solo, resiliência e agricultura regenerativa. Como representante da Federação, vejo a responsabilidade de preservar essa essência e, ao mesmo tempo, fazê-la avançar diante dos novos desafios. E, como filha de um pioneiro, existe uma dimensão muito afetiva nisso tudo."

Marie destacou que o Sistema Plantio Direto fez parte de sua história antes mesmo de ela compreendê-lo cientificamente. "Ver hoje esses princípios funcionando como um fio condutor entre aquilo que começou há mais de cinco décadas e a agricultura que queremos construir para o futuro é muito significativo. Mostra que não estamos falando apenas de uma técnica ou de uma memória do passado, mas de uma construção que continua viva e necessária."

Sobre as palestras que ouviu, ela ressaltou a atualidade das falas: "O que mais me marcou foi perceber que as falas de Franke e Richard Dijkstra e Manoel Pereira Jr, embora carregadas de história e experiência, foram profundamente atuais. Eles mostraram que muitos dos desafios que hoje discutimos, cobertura do solo, diversidade de culturas, rotação, conservação da água, matéria orgânica, biologia e resiliência dos sistemas produtivos, já estavam na essência da construção do Sistema Plantio Direto."

Para ela, a grande lição que fica é clara: "Inovar não significa abandonar os fundamentos. Ao contrário, o futuro da agricultura depende de conseguirmos aplicar cada vez melhor, com ciência, tecnologia e conhecimento acumulado, princípios que esses pioneiros ajudaram a estabelecer."

Legado se mantém vivo e ativo

As falas de Richard Dijkstra, Manoel Henrique Pereira Jr. e a visão de Marie Bartz no painel de abertura do 20º ENSPD mostraram que o Sistema Plantio Direto é uma construção viva, que continua sendo escrita por aqueles que herdaram não apenas a terra, mas também o conhecimento, a ousadia e a persistência dos que vieram antes.

Como disse Richard Dijkstra: "Nós devemos preparar as futuras gerações. Esse é o grande desafio que nós temos de realmente preparar as futuras gerações para que esse discurso seja mantido por eles também. Todo esse cuidado que essa geração está tendo na preservação do solo, no desenvolvimento de um sistema sustentável, que isso seja feito nas próximas gerações também."

O encontro entre passado e futuro, entre a história dos pioneiros e as promessas da agricultura regenerativa, mostrou que o SPD é, como definiu Marie Bartz, um fio condutor. Um fio que conecta o heroísmo de ontem ao desafio de hoje e à esperança de amanhã.