Projeto avalia minhocas e outros organismos como bioindicadores da qualidade dos solos
09-02-2026
Fundação de Amparo à Pesquisa e Extensão Universitária - FAPEU
O campus de Curitibanos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) está liderando um projeto de pesquisa que estuda as variações populacionais de minhocas, microminhocas, colêmbolos e ácaros e como esses organismos podem servir como bioindicadores da saúde do solo.
Com financiamento da empresa Bayer AG – Crop Science Division, da Alemanha, e da CloverStrategy, de Portugal, o trabalho é encabeçado pelo Núcleo de Ecologia e Ecotoxicologia do Solo (Necotox) da UFSC Curitibanos e conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Extensão Universitária (Fapeu). “A Fapeu tem papel fundamental na viabilização do projeto, fazendo a gestão financeira e administrativa. Por meio da Fundação, temos acesso e gerenciamento dos recursos fornecidos pelas empresas financiadoras, o que viabiliza a execução das atividades de campo, a aquisição de insumos e o desenvolvimento das análises científicas previstas”, destaca a coordenadora do projeto, Júlia Carina Niemeyer, professora vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Ecossistemas Agrícolas e Naturais (PPGEAN) da UFSC Curitibanos.
O projeto é um dos primeiros estudos no Brasil a aplicar o conceito de Faixa Normal de Operação (NOR) à fauna do solo, integrando parâmetros biológicos, físicos e químicos para entender a flutuação das populações de minhocas, colêmbolos, ácaros e microminhocas. “A partir da identificação de padrões sazonais naturais, será possível utilizar a NOR como uma ferramenta de monitoramento capaz de diferenciar variações naturais de eventuais alterações causadas por práticas agrícolas ou impactos ambientais, como originados pela aplicação de agrotóxicos. Isso poderá subsidiar políticas públicas, promover práticas agrícolas mais sustentáveis e orientar estratégias de recuperação de áreas degradadas”, destaca a professor Júlia Niemeyer.
Funções ecológicas
A fauna do solo, como minhocas, colêmbolos, ácaros e as microminhocas, desempenham funções ecológicas essenciais para o equilíbrio e a funcionalidade do solo, pois atuam na fragmentação da matéria orgânica, na formação de agregados, na ciclagem de nutrientes e na regulação da microbiota. A presença abundante e diversificada destes e de outros organismos pode indicar um solo saudável, com boa estrutura, fertilidade e fornecimento de serviços ambientais, resultando em aumento da produtividade agrícola. “Além disso, por serem sensíveis a alterações ambientais, eles funcionam como bioindicadores para o monitoramento da qualidade do solo”, acrescenta a coordenadora do projeto.
Os trabalhos, que começaram no início de 2025 e se estenderão até o final de 2026, envolvem a participação de oito pesquisadores nacionais e internacionais, entre eles a bióloga, professora e taxonomista de minhocas, Marie Bartz; profissionais das empresas parceiras e da UFSC, além de uma equipe de 10 pós-graduandos e bolsistas de graduação da UFSC. “O principal benefício do projeto é fornecer parâmetros ecológicos para o biomonitoramento do ecossistema do solo. Ao estudarmos as variações nas populações destes organismos ao longo do ano é possível diferenciar as oscilações naturais relacionadas ao clima das variações causadas por impactos, tais como uso de agrotóxicos ou mudanças no manejo do solo”, ressalta a professora Júlia.
Por exemplo, se após a aplicação de uma substância em uma lavoura for observada uma queda na população de determinado organismo, o conhecimento obtido pela pesquisa permitirá avaliar se essa variação está dentro do esperado para aquela época do ano (como uma queda natural no inverno, por exemplo) ou se é resultado direto da aplicação de agrotóxicos ou outros impactos. “Da mesma forma, este conhecimento pode indicar se práticas agrícolas sustentáveis estão favorecendo o aumento de certas populações, ou se técnicas mais agressivas estão gerando declínios preocupantes. Dessa forma, o projeto oferece uma ferramenta valiosa para a adoção de práticas agrícolas menos impactantes e para a formulação de políticas públicas voltadas à conservação da biodiversidade do solo, com o aprimoramento da avaliação de risco de agrotóxicos no Brasil”, observa a docente.
Coleta de amostras
A NOR (Faixa Normal de Operação ou Normal Operating Range) é um conceito ecológico que representa a oscilação natural esperada de uma determinada variável biológica em um sistema, como a abundância de organismos do solo ao longo do tempo. “No contexto deste projeto, a NOR é aplicada para estabelecer parâmetros de referência populacional para colêmbolos, ácaros e minhocas. Isso permite identificar quando alterações nas comunidades do solo fazem parte da flutuação natural (como mudanças sazonais) e quando representam impactos antrópicos, como manejo inadequado ou uso de substâncias químicas”, explica a coordenadora do projeto.
As amostras de solo para avaliação estão sendo coletadas na região do Planalto catarinense, especificamente nos municípios de Curitibanos e Frei Rogério. A pesquisa contempla quatro sistemas distintos de uso do solo: mata nativa, pastagem, sistema de plantio direto e sistema de preparo convencional. As primeiras coletas foram feitas nos dias 3 e 4 de fevereiro de 2025. “A escolha desses ambientes buscou representar um gradiente de intensidade e distinção do uso e impacto sobre o ecossistema solo”, explicou a professora. As etapas de extração, identificação e quantificação dos organismos são conduzidas no Laboratório Auxiliar de Ecotoxicologia e Biologia do Solo do campus de Curitibanos da UFSC.
As primeiras análises já demonstraram que o tipo de uso do solo e fatores climáticos influenciam a composição e abundância da fauna ao longo do ano. “Esses dados preliminares reforçam o potencial dos organismos estudados como indicadores ecológicos que são capazes de refletir os impactos positivos ou negativos das práticas agrícolas sobre a biodiversidade e a abundância dos grupos”, aponta a coordenadora do trabalho.
PROJETO: PROPOSTA PARA INVESTIGAR UMA FAIXA NORMAL DE OPERAÇÃO (NORMAL OPERATING RANGE - NOR) PARA COMUNIDADES DE FAUNA DO SOLO/ COORDENADORA: Júlia Carina Niemeyer / julia.carina@ufsc.br / UFSC / Departamento de Agricultura, Biodiversidade e Florestas / Campus de Curitibanos / 18 participantes / Instagram: @necotox
* Esta reportagem integra a edição 16 da Revista da Fapeu, disponível na íntegra em https://fapeu.org.br/revistafapeu