Sete novas minhocas nativas do Brasil são aliadas invisíveis da agricultura sustentável
23-12-2025
Da Redação FEBRAPDP
Um artigo científico publicado em dezembro de 2025 na revista Zootaxa revelou uma descoberta muito interessante não só para a agricultura sustentável, mas para a ciência do solo: trata-se da descrição de sete novas espécies de minhocas nativas do Brasil. As novas descobertas ajudam a reescrever o conhecimento sobre biomas como Mata Atlântica e Cerrado. E o estudo vai mais além: áreas sob Sistema Plantio Direto e continuado apresentaram resultados semelhantes às áreas de vegetação nativa, sendo mantenedoras de nossa biodiversidade.
A pesquisa, que foi conduzida por Rafaela Dudas, em seu trabalho de doutorado no Departamento de Ciência do Solo da Universidade Federal do Paraná e coorientada por Marie Bartz, professora e especialista em macrofauna do solo e Sistema Plantio Direto (SPD), Luís Cunha, pesquisador do Centro de Ecologia Funcional, Departamento de Ciências da Vida, Universidade de Coimbra, Portugal, e George Brown, pesquisador da Embrapa Florestas e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), joga luz sobre a imensa e ainda pouco conhecida biodiversidade do solo brasileiro. De acordo com Dudas, o estudo evidencia o grande desconhecimento que ainda existe. Segundo ela, o mesmo estudo estimou ainda que aproximadamente 70% das espécies de minhocas brasileiras são desconhecidas pela ciência. A partir desses resultados, abre-se espaço para novas pesquisas e avanços sobre ecologia do solo, indicadores biológicos e conservação da biodiversidade edáfica.
"A descrição de sete novas espécies de minhocas nativas do Brasil mostra, antes de tudo, o quanto a biodiversidade do solo ainda é pouco conhecida no país", afirma a pesquisadora.
A descoberta dessas novas espécies, segundo a professora Marie Bartz, reforça que a sustentabilidade do solo não pode ser avaliada apenas por métricas químicas e/ou físicas, mas também pela sua biodiversidade. "Esses organismos são excelentes bioindicadores do funcionamento do solo e refletem diretamente os efeitos positivos de sistemas conservacionistas como o SPD", complementa Bartz.
Ela destaca que, embora o eixo central de projetos como o SPD Agro+ esteja nas mensurações de carbono como principal indicador de sustentabilidade, resultados como os deste estudo, que é voltado à saúde e à qualidade do solo, acrescentam uma dimensão fundamental à avaliação, conferindo ainda mais robustez e credibilidade aos dados gerados.
A pesquisa surgiu de uma demanda da Federação Brasileira do Sistema Plantio Direto - FEBRAPDP, que obteve os recursos necessários para financiar o trabalho de campo, as análises de laboratório, bolsas e toda a estrutura imprescindível para a execução do projeto. De acordo com o professor Brown, além do suporte financeiro, foi fundamental contar com recursos humanos qualificados para desenvolver a proposta central: “A ideia consistia em avaliar a qualidade do SPD e compará-la com outras formas de manejo do solo, incluindo práticas que não seguem integralmente as premissas do SPD – cobertura permanente do solo, a rotação de culturas e a não-revolvimento do solo –, buscando compreender como as populações de minhocas respondem a esses diferentes cenários”.
Homenagem à vida
Uma peculiaridade da descoberta é que as espécies foram batizadas com nomes de pioneiros e ativistas do SPD. Uma homenagem que, segundo a pesquisadora Marie Bartz, surgiu para reconhecer o papel fundamental dos agricultores na conservação da biodiversidade do solo. A homenagem celebra agricultores, unindo a descoberta científica à história do Sistema Plantio Direto no Brasil:
- A espécie Glossoscolex arnsi homenageia Ulfried Arns e sua família, proprietários da Fazenda Três Marias, em Bom Jesus, RS.
- Carlos Roberto Alessio e seus filhos, da Fazenda Banhado Verde, em Faxinal dos Guedes, SC, são celebrados na espécie Glossoscolex alessioi.
- A Fazenda São Judas Tadeu e a dedicação de Laércio Dalla Vecchia e família à difusão de boas práticas são reconhecidas na espécie Glossoscolex dallavecchiai e possuem propriedade sediada em Mangueirinha, PR.
- A família De Bortoli, referência em SPD na Fazenda Santa Teresinha, dá nome à espécie Glossoscolex debortolii. O homenageado, Maurício De Bortoli, é de Cruz Alta, RS.
- Da Fazenda Retiro da Serra, Richard Fuchs é homenageado na espécie Glossoscolex fuchsi. O agricultor com trabalho em Integração Lavoura-Pecuária (ILP), atua em Maracaju, MS.
- Daniel Strobel e sua família, pioneiros da Fazenda Condor, dão nome à espécie Glossoscolex strobeli. Eles estão localizados em Panambi, RS.
- Marcos Fridrich, proprietário da Fazenda Faxinal Sul e referência no manejo de SPD, é celebrado na espécie Fimoscolex fridrichi, em Ajuricaba, RS.
“Muitas dessas espécies só têm se mantido porque houve adoção de boas práticas de manejo e conservação do solo, como o Sistema Plantio Direto”, explica. Dar o nome de agricultores a novas espécies é, para ela, um gesto simbólico e concreto que aproxima a ciência da realidade do campo, demonstrando que a produção agrícola e a conservação não são opostas e “DEVEM andar de mãos dadas”, lembra Bartz.
A iniciativa, avalia ela, fortalece a parceria entre ciência e agricultura ao reposicionar o agricultor na linha de frente da conservação. “Isso valoriza o agricultor como agente ativo da conservação e não apenas como usuário das tecnologias desenvolvidas pela pesquisa”, destaca. Ao eternizar seus nomes na taxonomia científica, a homenagem cria uma ponte duradoura, reconhecendo que o conhecimento gerado no campo é tão vital para a sustentabilidade quanto aquele produzido nos laboratórios.
Plasticidade evolutiva
As espécies descobertas pertencem aos gêneros Glossoscolex e Fimoscolex, comuns em solos tropicais. A pesquisa trouxe uma novidade surpreendente: uma das espécies, a Fimoscolex fridrichi, não possui câmara copulatória, uma característica inédita para o gênero. "Essa nova característica indica que esses organismos podem apresentar maior plasticidade evolutiva do que se imaginava. Em outras palavras, esse tipo de descoberta sugere que características consideradas “fixas” na taxonomia podem, na verdade, variar em resposta a pressões ambientais e evolutivas ao longo do tempo", explica a pesquisadora Dudas.
Um dos achados mais significativos é que várias dessas minhocas foram encontradas tanto em vegetação nativa quanto em áreas de Sistema Plantio Direto (SPD) bem manejado. No estudo, as áreas de SPD consideradas são aquelas onde o sistema é adotado de forma consolidada, com histórico de vários anos de uso, rotação de culturas, utilizando culturas de serviço e manutenção de cobertura do solo. Áreas com manejo intermediário ou que “furam” aos princípios do SPD tendem a apresentar resultados diferentes.
"O fato de acharmos espécies nativas tanto em vegetação nativa quanto em culturas, indica que sistemas agrícolas conservacionistas podem manter e até favorecer a biodiversidade nativa do solo", destaca Dudas.
Funções essenciais
Para a agricultura, a descoberta reforça a importância de práticas que conservem a vida no solo. "As minhocas desempenham funções essenciais, como aumento da porosidade, melhoria da infiltração de água, incorporação de matéria orgânica e estímulo à atividade microbiana", afirma. Ela define esses organismos como "aliadas invisíveis da agricultura sustentável, conectando conservação ambiental e produtividade agrícola".
Segundo Dudas, a presença desses animais é um termômetro da saúde do solo. "As minhocas respondem rapidamente às mudanças no uso e manejo do solo, o que as torna excelentes bioindicadoras". A presença de espécies nativas, especialmente as mais sensíveis, pode indicar solos com boa estrutura e equilíbrio ecológico.
George Brown destaca que, embora as minhocas descobertas neste estudo sejam mais resistentes e ocorram em áreas agrícolas já manejadas, isso não diminui a necessidade de protegê-las. “Sabemos que as minhocas são essenciais para a fertilidade e o funcionamento do solo — fazem gratuitamente um trabalho vital de misturar o solo e a matéria orgânica, um processo biogeoquímico que ajuda as lavouras a produzirem melhor”, explica.
Ele conclui enfatizando o elo direto entre ciência taxonômica e manejo prático: “Quando damos atenção a essas espécies e manejamos o solo de forma a aumentar suas populações, ganhamos um efeito diferenciado. A descrição científica, portanto, não é um fim em si; é o primeiro passo para valorizar e conservar organismos que, protegidos e manejados adequadamente, se tornam aliados ativos de uma agricultura mais produtiva e sustentável”.
Apenas 300 espécies identificadas
Na percepção de Bartz, a identificação de tantas espécies novas evidencia que o solo ainda é, em grande medida, uma verdadeira “caixa de Pandora”. “Há muito a ser descoberto e compreendido sobre a vida sob os nossos pés, especialmente em agroecossistemas tropicais. Na prática, para os agricultores, isso reforça que modelos conservacionistas, como o Sistema Plantio Direto, vão além da produtividade e ajudam a preservar processos biológicos essenciais. Para gestores públicos e a sociedade, evidencia que conservar o solo é investir em biodiversidade, resiliência climática e segurança alimentar de longo prazo”, afirma.
A despeito disso, de acordo com Rafaela Dudas, mesmo com os efetivos e relevantes resultados, o setor da pesquisa científica nessa área enfrenta um gargalo. Apesar de as minhocas serem organismos-chave nos ecossistemas terrestres, atuando diretamente na estrutura do solo, na ciclagem de nutrientes e na atividade biológica, atualmente são cinco pesquisadores atuando no Brasil e inúmeras espécies que precisam ser descritas.
“Existem apenas cerca de cinco especialistas no país capazes de realizar este tipo de trabalho, e apenas quatro estão ativos de forma mais regular.” Ele contextualiza a dimensão do desafio: “Estima-se que o Brasil tenha entre 1.400 e 2.100 espécies de minhocas, das quais apenas cerca de 300 são conhecidas. Isso deixa mais de mil espécies à espera de descrição”, explica o pesquisador George Brown.
Marie Bartz, destaca também que, infelizmente, a descontinuidade é um problema recorrente na maioria dos projetos de pesquisa científica. “Os resultados obtidos neste trabalho representam apenas um recorte mínimo da imensa biodiversidade do solo brasileiro e evidenciam o quanto essa área ainda é negligenciada. Estamos falando de ciência básica, justamente o alicerce sobre o qual qualquer inovação deveria se apoiar, e, paradoxalmente, é onde há menos investimento e menos prioridade. A pergunta que precisamos fazer é simples e incômoda: como queremos inovar se ainda não sabemos o que existe sob os nossos pés?”
“Com cinco pessoas, descreveríamos cinco espécies por ano. Para cobrir mais de mil espécies, levaríamos séculos”, explica. Brown vai além e destaca um obstáculo estrutural crítico: a falta de fixação profissional. “Não adianta apenas capacitar. No momento, sou o único do grupo com um emprego fixo. A Marie Bartz atua como pesquisadora visitante, a Rafaela Dudas e o Luís Cunha estão em pós-doutorado, e o Sandriel Sousa, aluno de mestrado da Universidade Federal do Maranhão. É um grande desafio reter esses talentos”, reforça o pesquisador.
Biodiversidade não pode ser ignorada
Para Bartz, ignorar a biodiversidade do solo é comprometer o futuro da agricultura, da conservação ambiental e da segurança alimentar. “Garantir a continuidade dessa pesquisa exige mais do que editais pontuais. É necessário investir na formação de pesquisadores, na criação de linhas permanentes de pesquisa e em posições institucionais dedicadas à fauna do solo, que são fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas e ainda extremamente pouco estudados. Sem esse compromisso de longo prazo, continuaremos avançando tecnologicamente na superfície, enquanto permanecemos cientificamente no escuro no que diz respeito à vida que sustenta nossos solos e garantem a resiliência e sustentabilidade de nossos sistemas agrícolas”, diz ela.
Já para Brown, ignorar esse universo é comprometer o futuro. “Como vamos conservar o que não conhecemos? Precisamos primeiro saber quem são esses organismos, sua biologia, onde vivem e o que precisam para sobreviver. Só então poderemos preservar e manejar adequadamente.” Brown ressalta que o objetivo é claro: “Queremos um solo mais biodiverso, produtivo e sustentável a longo prazo, seja em ecossistemas nativos, agrícolas, pastagens ou florestais. Para isso, precisamos entender o que está presente, como é afetado e como conservá-lo de forma a manter as populações de espécies benéficas”.
A consequência da inação, segundo ele, é perder a oportunidade de garantir a segurança alimentar e ambiental. “Se continuarmos negligenciando, estaremos abrindo mão de conhecer e potencializar os serviços ecossistêmicos gratuitos que a fauna do solo oferece. É urgente aumentar o apoio à pesquisa, capacitar profissionais e conscientizar a população, os órgãos de fomento e o governo sobre a necessidade de políticas que assegurem o uso sustentável desse recurso natural vital”, conclui.
Equipe e Agradecimentos
A pesquisa, parte integrante do âmbito do Módulo III (Indicadores de Saúde do Solo) do projeto "Sistema Plantio Direto: base para uma agricultura sustentável - SPD Agro+", contou com uma equipe robusta e multidisciplinar, mobilizando um total de 11 pesquisadores, 3 doutorandos, 2 mestrandos e mais de 15 colaboradores – entre profissionais, graduandos e pós-doutorandos – que atuaram para viabilizar as atividades de campo e de laboratório.
A pesquisa contou com financiamento da União Europeia (Euroclima+ Fund) e apoio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e da Fundação Agrisus, tendo a Federação Brasileira do Sistema Plantio Direto (FEBRAPDP) como executora e coordenadora científica. A colaboração fundamental dos agricultores, que abriram suas propriedades para o estudo, foi decisiva para o sucesso do trabalho, reforçando a parceria essencial entre ciência e campo que sustenta avanços rumo a uma agricultura verdadeiramente sustentável.
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