SPD celebra 50 anos de "cópia da natureza" e inspira futuras gerações nos Campos Gerais do Paraná

27-08-2026

Da Redação FEBRAPDP

Há exatos 50 anos, uma decisão tomada em uma fazenda nos Campos Gerais do Paraná mudaria para sempre a forma como o Brasil produz alimentos. Em 1976, no município de Carambeí, o agricultor Franke Dijkstra desafiou as técnicas convencionais da época, abandonou o arado e realizou o primeiro plantio direto da Fazenda Frank'Anna. No último dia 15 de agosto, o mesmo solo que testemunhou essa ousadia foi palco de uma celebração histórica.

O Jubileu de Ouro do Sistema Plantio Direto (SPD) na região reuniu muitos atores do setor para homenagear não apenas os 50 anos da tecnologia, mas também os 85 anos de vida de Franke Dijkstra, o visionário que, como ele mesmo diz, teve a "loucura" de "copiar a natureza". A cerimônia foi marcada pela emoção, por cartas, pelo reconhecimento da FEBRAPDP e, sobretudo, pelos depoimentos de três gerações da família Dijkstra, que contaram como o SPD deixou de ser uma técnica para se tornar um legado familiar.

Inauguração da placa pelo Jubileu de Ouro do SPD nos Campos Gerais do Paraná

"Copiar a natureza"

O próprio Franke Dijkstra resumiu em poucas palavras a essência da sua decisão. Há 50 anos, ele começou o plantio direto porque viu a agricultura convencional levando a terra "rio abaixo". Foi então que pensou: por que não "copiar a natureza"? Afinal, a semente cai da árvore e nasce no mato sem preparo. Observando isso, percebeu que a planta vai muito bem plantada direto no solo, com um pequeno corte para facilitar a deposição da semente. A vida biológica do solo também responde. Para Franke, "a vida no solo é tudo" para ter fertilidade e continuidade do sistema.

Ele também destacou o caráter coletivo da construção do SPD: "nada nasce sozinho". Tudo depende de uma equipe, de várias opiniões, e o conjunto de boas ideias soma o sucesso do sistema. Franke citou Herbert Bartz, Nonô Pereira e Hans Peeten como pessoas fundamentais no arranque do plantio direto.

Franke ainda lembrou a resistência que enfrentou. "Me chamaram de louco", mas, para ele, todo mundo tem um pouco de loucura. E as loucuras, ele acredita, são necessárias para desafiar o que todos acham comum. Questionar o porquê das coisas é fundamental em todos os sistemas.

Franke e Margaretha Anna

"O pai é o herói"

Richard Dijkstra, filho de Franke, foi uma das vozes mais emocionantes da cerimônia. Ele relembrou os primeiros anos do SPD sob a ótica de quem viveu a infância e a adolescência vendo o pai enfrentar críticas e resistência, mas sem nunca perder a admiração.

Richard contou que, no início, o plantio direto gerou muita insegurança dentro da própria família. Os irmãos de Franke chegaram a procurar sua mãe para tentar convencê-lo a desistir, temendo que ele fosse à falência. A cooperativa também fez pressão e cortou o crédito. Mas, para Richard, a visão sempre foi outra: o filho via o pai como um herói. Ele confiava plenamente no pai e via naquela atitude algo novo e inspirador.

Richard disse que ele e sua irmã nunca perceberam aquilo como "mais uma ideia do pai". Pelo contrário, o idealismo, o brilho nos olhos e a empolgação de Franke com o Plantio Direto contaminaram todos dentro de casa. Toda a família foi contagiada pelo seu ideal.

Uma sucessão construída desde a infância

Richard também detalhou como a passagem do bastão aconteceu de forma natural, começando quando ele ainda era criança. Ele cresceu dentro da fazenda, participando de todos os processos: colheita, plantio, pulverização. Desde pequeno, o pai o levava para acompanhar o negócio. Aos 12 anos, Richard já operava sozinho uma colhedeira.

A sucessão, segundo ele, não foi um evento isolado, aconteceu diariamente, desde a infância. O momento decisivo ocorreu quando Franke assumiu a presidência da cooperativa, o que ocupou toda a sua agenda e o levou a entregar o bastão, de fato, ao filho e ao genro, Mauricio Greidanus.

Richard destacou a sabedoria do pai em permitir que os filhos errassem. Franke entregou o bastão dando a oportunidade de acertar e de errar. Ele estava sempre disponível para conversar, tirar dúvidas e trocar ideias. Para Richard, essa foi uma forma muito positiva de fazer a sucessão, porque, se o sucessor não é autorizado a errar, também não tem oportunidade de crescer. Os erros ensinam mais do que os acertos, e o grande desafio é permitir que o sucedido erre, mas sem cometer erros grosseiros, com o pai próximo e monitorando.

Hoje, a Fazenda Frank'Anna tem uma governança profissionalizada, com papéis bem definidos entre os membros da família. Richard Dijkstra é o presidente do Grupo Frank'Anna. Maurício Greidanus (genro de Franke) é o diretor Pecuário, responsável pela produção de leite e suínos. Eduard Dijkstra é o diretor agrícola, dividindo a gestão da Agrícola Tocantins com Franke Leonardo Dijkstra que é o diretor financeiro e comercial. Camila Greidanus Nolte, sobrinha de Richard, é diretora de RH, e Fabiane Greidanus Nolte é a diretora administrativa. Cada um tem seu papel bem definido, com políticas de risco claras, alçadas bem definidas e aprovadas pelo conselho de sócios.

Richard e os netos

A visão da nova geração

Eduard Alberto Dijkstra, neto de Franke e diretor agrícola da Frank'Anna, contou que o processo de sucessão em sua propriedade também ocorreu de maneira natural. Seu avô passou para seu pai e, quando ele entrou no negócio em 2020, iniciou como gerente operacional. Nos dois primeiros anos, recorria ao avô e ao pai para auxiliar na tomada de decisão. Ele destacou que eles sempre ouviam e muitas vezes permitiam que ele fizesse do seu jeito, porque uma das melhores maneiras de aprender é errando.

Eduard relembrou com afeto a infância ao lado do avô. Ele sempre viveu dentro da propriedade e acompanhava o dia a dia no campo. Seu avô sempre se fez presente, levando os netos para "rodar" lavoura ou andar de trator. A alegria de Franke em fazer o que faz fez com que eles desenvolvessem o mesmo amor pelo negócio. Eduard tem várias lembranças de estar andando na lavoura e o avô arrancar uma planta para avaliar o sistema radicular, além de sua alegria ao encontrar minhocas no solo.

Franke Leonardo Dijkstra, diretor financeiro e outro neto de Franke, falou sobre o orgulho de carregar o nome Frank'Anna. O nome junta o do avô ao da avó, contando como a fazenda foi construída. Junto com o nome vem a responsabilidade de seguir produzindo com sustentabilidade, cuidando do solo do mesmo jeito que aprenderam e passando o legado adiante melhor do que receberam.

Ele também falou sobre as inovações que a nova geração pretende trazer sem abrir mão dos princípios do SPD. Para os próximos 50 anos, querem o mesmo que o avô quis: fazenda produtiva e solo melhor a cada ano. Franke Leonardo enfatizou que o plantio direto é um princípio antes de ser uma técnica que priorize mexer o mínimo no solo, mantê-lo sempre coberto e rotacionar as culturas. Isso não se abre mão e continua valendo com qualquer tecnologia nova.

Ele destacou duas frentes de inovação que vêm com a sua geração, e nenhuma delas contraria esse princípio. A primeira é a agricultura digital associada à inteligência artificial, que acelera a tomada de decisão. A outra é a gestão profissional aliada à governança, que trata a sucessão familiar como processo planejado e faz a fazenda funcionar por método próprio, independente de quem esteja na cadeira.

Gerações Dijkstra

Memória afetiva e legado vivo

Marie Bartz, presidente da Comissão Técnico-Científica da FEBRAPDP e filha de Herbert Bartz — um dos pioneiros históricos do SPD —, esteve presente na cerimônia e trouxe sua visão emocionada sobre o reconhecimento a Franke Dijkstra e sua família.

Marie contou que, ao ver a homenagem, vieram à tona as conversas em casa, as histórias das viagens, das dificuldades, das máquinas adaptadas e, sobretudo, da determinação daqueles agricultores que acreditaram no SPD quando ainda havia muita desconfiança. Para ela, Herbert Bartz, Nonô Pereira e Franke Dijkstra nunca foram apenas personagens da história — eram pessoas próximas, ligadas por uma causa e por uma amizade construída ao longo de muitos anos. Ver Franke e sua família recebendo esse reconhecimento desperta orgulho, gratidão e também saudade. É como reencontrar um pouco de seu pai e de Nonô nessa história que permanece viva.

Marie também falou sobre o papel das novas gerações na manutenção do legado. Manter esse legado vivo significa mais do que preservar fotografias e contar os feitos dos pioneiros, embora isso também seja fundamental. Significa compreender os valores que os moveram: coragem para mudar, curiosidade para aprender, generosidade para compartilhar e compromisso com a conservação do solo. Cabe às novas gerações atualizar essa mensagem, aproximá-la da ciência, dos agricultores e da sociedade e, principalmente, praticar o SPD em sua plenitude.

Marie enfatizou a importância da FEBRAPDP nesse processo. A Federação não pode ser vista apenas como parte da história de seus pais e avós; ela precisa continuar sendo fortalecida, renovada e assumida como uma responsabilidade compartilhada. O legado só permanece verdadeiramente vivo quando deixa de ser apenas memória e continua produzindo transformação.

Manoel Pereira Jr., Maury Sade, Franke, Marie Bartz, Hans Peeten e Lutécia Canali

Os filhos de Nonô Pereira: Isabel, Manoel e Stela

Marie Bartz, filha de Herbert Bartz, durante a leitura da carta da FEBRAPDP

Fazenda produtiva e solo melhor a cada ano

A celebração dos 50 anos do Sistema Plantio Direto na Fazenda Frank'Anna mostrou que o SPD é muito mais do que uma técnica agrícola. É uma história de coragem, de união e de compromisso com o solo e com as futuras gerações.

Richard Dijkstra resume bem o desafio que fica: preparar as futuras gerações para que mantenham esse discurso. Todo o cuidado que essa geração está tendo na preservação do solo e no desenvolvimento de um sistema sustentável precisa ser passado adiante.

E Franke Leonardo Dijkstra sintetiza o que os próximos 50 anos reservam alinhados com o mesmo desejo do avô: fazenda produtiva e solo melhor a cada ano.

A história do SPD, que começou com a "loucura" de Franke Dijkstra, segue viva. E agora, escrita também pelas mãos de seus filhos, netos e bisnetos.

Para acessar as mensagens lidas durante a cerimônia, clique nos links:
- Mensagem da FEBRAPDP
- Mensagem da Família Bartz
- Mensagem da Comunidade Japonesa de Mauá da Serra
 

O Clube da Minhoca e os primeiros anos

Franke e Hans Peeten: amizade e aventuras

Hans Peeten, engenheiro agrônomo holandês que chegou ao Brasil em 1974 e participou dos primeiros anos do SPD nos Campos Gerais, trouxe um olhar histórico e detalhado sobre o nascimento do movimento.

"Para ganhar um dinheiro durante o estudo na Universidade Wageningen na Holanda tive a oportunidade de trabalhar com o Centro de Pesquisa Agrícola na Holanda, aonde desde 1968 começaram as primeiras pesquisas do Plantio Direto principalmente nas regiões de solos arenosos onde produtores sofreram da erosão do vento. Certo dia, um representante de uma indústria de máquinas agrícolas na Inglaterra e que tinha recém voltado do Brasil, enquanto estava avaliando os nossos trabalhos de pesquisa, me disse que eu devia levar esse trabalho para as terras brasileiras, onde a agricultura estava sofrendo muito com a erosão. Eu não conhecia o Brasil, mas já havia passado um tempo curto em Portugal, conhecia um pouco o idioma e decidi ir em 1974 como estagiário para um estágio de nove meses numa fábrica de implementos agrícolas o qual estava introduzindo a Rotacaster, a primeira plantadeira para Plantio Direto."

Hans descreveu o impacto que teve ao chegar à região: "Chegando em 1976 e conhecendo a região dos Campos Gerais melhor me assustei muito com a absurda erosão nas lavouras com as chuvas intensas de até 100 mm em meia hora. As curvas de nível, um tremendo obstáculo para a mecanização causando muita ineficiência dos insumos aplicados não resolveram o problema das enxurradas frequentes. A queima da resteva das culturas seguido pelo preparo intensivo do solo com grades destruiu, cada safra de novo, a estrutura do solo até duas vezes por anos. Isso inclusive na fazenda do Franke, que chegou até de tentar drenar o excesso de água por meio de um sistema de tubulações subterrâneos nas lavouras. Imaginei o desespero dos produtores após cada chuva pesada. O desafio era muito maior do que eu tinha pensado."

Ele contou como o Clube da Minhoca nasceu em 1979: "No final dos anos 70, depois que um grupo de produtores das Cooperativas ABC, Holambra, Coopagrícola, e representantes do IAPAR e ACARPA viajarem em 1977 aos EUA para conhecer o método de plantio direto lá, os produtores da região começaram a se reunir, com cada um compartilhando sua experiência. Foi bem espontâneo e logo participaram muitos produtores. Aí em outubro 1979, três meses após a viagem aos Estados Unidos de Nonô Pereira e Franke Dijkstra, na qual surgiu a ideia de repassar os conhecimentos adquiridos deles aos produtores e técnicos da região, nasceu o Clube da Minhoca, uma organização informal, sem estatuto e sem sede."

Hans explicou a dinâmica do grupo: "Dessa forma cada produtor trazia suas experiências dentro do grupo, seja um bom ou mal resultado com um herbicida novo, uma máquina adaptada diferente, uma máquina protótipo das indústrias, manejos mecânicos e químicos das diversas coberturas do solo, rotações de culturas etc. Como existia na época muito mais perguntas do que respostas, parecia que o Clube da Minhoca funcionava como diz o ditado brasileiro 'Quem não se comunica se trumbica' e funcionava desta maneira como um catalisador na disseminação do sistema de plantio direto. Sempre buscando a integração com a pesquisa oficial nacional e internacional bem como a indústria. Assim junto com pesquisadores dos EUA como Shirley Philips, Raymond Gallaher, William Witt, e vários outros foram feitas palestras e jornadas de Plantio Direto na Palha às diversas regiões para avaliar lavouras em solos, climas e produtores diferentes. O Plantio Direto na Palha nasceu para ficar."

Hans também compartilhou uma história bem-humorada de uma viagem de divulgação do SPD: "Como a quantidade de perguntas dos produtores, cooperativas bem como empresas era muito grande, cada vez mais solicitações chegaram para fazer palestra nas mais diversas regiões no Brasil. Assim fomos nós, Franke Dijkstra, Nonô Pereira, Nadir Razini, Maury Sade e eu num dia bem chuvoso para o Sul a pedido de uma empresa. Quando o representante, nosso motorista de viagem, chegou de VW-variant, perguntamos se o plano dele era de nos quatro levar neste carro, com vidro abafado, 600 km para o Sul. E não poderia ter sido de outra forma, logo Nonô entrou numa revenda de carros e chegou com um luxuoso Ford Landau, tipo limousine, e pediu ao motorista representante se não era melhor de nós irmos neste carro. E assim nós fomos a caminho após ter abastecido o tanque com mais de 100 litros e outros mais 100 litros em galões na porta-mala. Era época em que os postos estavam fechados nos fins de semana. A meia noite, após as palestras para produtores e técnicos partimos cansados de carro rumo hotel, na contramão por sermos mais rápido, sem as luzes do carro aceso e, pior, após algumas cervejas. Logo fomos perseguidos por policiais que nos mandaram, com a pistola na mão, sair do carro e levantar as mãos. Provavelmente escapamos do pior uma vez que Nonô, muito esperto, deu alguns passos para trás e pediu licença e um sorriso de todo mundo, para poder documentar com fotografia de nossa situação precária, antes da possível entrada na cadeia como missionários do plantio direto na palha. Felizmente foi apenas uma repreensão e risadas e dormimos com uma pedra naquela noite."