Por que promover sistemas integrados não convencionais?

Carlos Eduardo Pacheco Lima, engenheiro ambiental, doutor em Solos e Nutrição de Plantas, pesquisador em Mudanças Climáticas Globais da Embrapa Hortaliças

Por que promover sistemas integrados não convencionais?
Hortaliça folhosa cultivada em sistema plantio direto - Foto: Nuno Madeira/Embrapa

A agropecuária brasileira, em que pese o fato de ter sido constituída em bases científicas e sustentáveis, vive um momento decisivo. A conjuntura política, econômica, geopolítica e ambiental desafia o setor a se reinventar. Alguns exemplos são a crescente intensificação dos eventos climáticos extremos, a maior pressão por aumento de produtividade e a necessidade de aliar a sustentabilidade ambiental com a socioeconômica. Ponto chave nessa discussão é o olhar que pretende se dar à pequena e média agricultura brasileira, incluindo a agricultura familiar, uma vez que elas têm ficado “de lado” nos mais diversos fóruns.

Não apenas a necessidade de gerar emprego e renda, melhorando as condições de vida, mas também de manter a segurança alimentar e nutricional do país, exige ações imediatas para aumento da resiliência e da sustentabilidade dos sistemas de produção. Visando o atingimento de tais conquistas, a Embrapa estabeleceu como um de seus desafios de inovação a intensificação ou proposição de sistemas integrados de produção não convencionais.

Esse desafio está ligado aos seguintes problemas e oportunidades e é aplicável a todos os biomas brasileiros:

- Promover inovação em sistemas integrados além da Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), incluindo a pequena e média agricultura, resultando em diversificação da produção, menor impacto ambiental, economia de recursos, agregação de renda e condições de trabalho mais dignas, adaptados aos diferentes biomas.

- Inovar em práticas, produtos e processos em Sistemas Agroflorestais (SAFs), sistemas integrados de hortaliças mais frutíferas, sistema plantio direto de hortaliças, sistemas integrados de aquicultura mais agricultura, aquaponia, sistemas integrados de hortaliças mais frutíferas com produção animal, sistemas que envolvam produção de alimentos e energia, dentre outros modelos de produção integrados com foco em sustentabilidade e resiliência.

É notório que as cadeias produtivas diversas, aqui focando naquelas de pequeno e médio porte predominante como hortaliças, plantas medicinais, fruteiras de ciclo curto, agropecuária familiar, entre outras, apresentam déficit expressivo de informações básicas capazes de direcionar o desenvolvimento de tecnologias que possam aumentar a sustentabilidade agropecuária.

Por outro lado, há vastas evidências científicas que mostram que o uso de tecnologias alternativas como os bioinsumos, os sistemas agroflorestais, sistemas aquapônicos, sistemas integrados de produção com pequenos animais, sistema plantio direto de hortaliças (SPDH), sistemas de produção sem solo em cultivo protegido, sistemas agroecológicos diversos, entre outros, são capazes de melhorar a saúde do solo, o microclima de cultivo e de economizar recursos, reduzindo a pegada ambiental e socioeconômica, além de reduzir a dependência externa dos sistemas de produção.

Todo esse contexto está em consonância com aquele trazido pela necessidade de migração para a agricultura regenerativa, pela Agenda 2030 e seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), pela adoção de políticas públicas e de atender a referenciais teóricos e técnicos de instituições internacionais como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Ainda, encontram respaldo em modelos de produção emergentes como a agricultura urbana e periurbana, a agricultura indoor e a agricultura espacial. Finalmente, integram-se com cadeias da bioeconomia e economia circular, resultando em aumento da resiliência e sustentabilidade dos sistemas produtivos.

Dentre as frentes primárias de inovação podem ser destacados os sistemas agroflorestais, os sistemas integrados com aquicultura e/ou pequenos animais, os sistemas de produção em ambiente protegido e/ou controlado, o redesenho para modelos de produção em áreas urbanas e periurbanas, sistemas baseados no uso de matéria-prima oriundas da bioeconomia e da economia circular, sistemas multifuncionais (por exemplo, integrando alimentos, plantas medicinais, plantas alimentícias não convencionais, produção de madeira e de serviços ecossistêmicos), o sistema plantio direto de hortaliças e outros sistemas agroecológicos, além de possíveis inovações relacionadas a temas digitais emergentes como IoT, IA, uso de drones, dentre outros. Ao promover estes modelos, é possível ampliar a capacidade de geração de renda, fortalecer a inclusão socioprodutiva, diversificar a economia rural e apoiar a transição para sistemas mais resilientes.