Sistema Plantio Direto como agricultura de relações

Por Afonso Peche Filho, pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas - IAC

Sistema Plantio Direto como agricultura de relações
Foto: Juliane Garcia Knapik Justen/Epagri – SC

Chamar o Sistema Plantio Direto (SPD) de “agricultura de relações” é reconhecer que ele não é apenas uma técnica para reduzir erosão ou economizar combustível. O SPD, quando bem praticado, é uma proposta de reorganização do agroecossistema: ele fortalece vínculos entre solo, água, raízes, microrganismos, clima local, biodiversidade e decisões humanas. Nessa leitura, inspirada pela ideia de Gaia, a Terra como sistema vivo e interdependente, o SPD deixa de ser um “pacote operacional” e passa a ser uma forma de cultivar conexões ecológicas que sustentam produção com estabilidade.

Em uma agricultura industrializada, a lógica dominante costuma ser linear: aplica-se insumo, obtém-se resposta. O solo vira “suporte” e a paisagem vira “cenário”. Na agricultura de relações, a lógica é sistêmica: cada intervenção altera a rede. O SPD, justamente por reduzir revolvimento e manter cobertura, protege a estrutura onde as relações acontecem. Isso é decisivo nos trópicos, onde a energia climática (chuvas intensas, calor, mineralização rápida) pode desorganizar a funcionalidade do solo quando ele fica exposto e mobilizado.

A primeira relação central do SPD é a relação solo–cobertura. Cobertura não é ornamento: é infraestrutura ecológica. Palhada e cobertura viva amortecem o impacto das gotas de chuva, reduzem selamento superficial, moderam temperatura, diminuem evaporação e alimentam a biologia do solo. Em termos simples: cobertura é o “telhado do solo”. Sem esse telhado, a água bate, a superfície sela, a infiltração cai, a enxurrada aumenta e o sistema passa a perder o que mais precisa conservar: água, carbono e estrutura. O SPD, ao colocar a cobertura como regra e não como exceção, reorganiza a relação do solo com a atmosfera.

A segunda relação é solo–água. O SPD bem manejado favorece a infiltração e o armazenamento de água porque mantém macroporos, bioporos e agregados estáveis, reduzindo a compactação e o colapso estrutural. A água, nesse sistema, deixa de ser apenas “chuva” e passa a ser “reserva”: água que entra e permanece no perfil sustenta a cultura em veranicos, reduz estresses fisiológicos e melhora a eficiência de uso de nutrientes. Em linguagem de relações: o SPD fortalece o vínculo entre a precipitação e a planta, mediado pela estrutura do solo.

A terceira relação é raízes–microrganismos–nutrientes. Em solo não revolvido, com aporte contínuo de resíduos e diversidade de plantas, o SPD tende a aumentar a atividade biológica e a complexidade funcional. Raízes liberam exsudatos que alimentam microrganismos; microrganismos constroem agregados, liberam nutrientes de forma gradual, estabilizam carbono e interagem com micorrizas. Nutriente, então, não é apenas “dose aplicada”; passa a ser parte de um ciclo: entra, circula, é retido, volta à planta. Quanto mais forte o ciclo, menor o “vazamento” (lixiviação, volatilização, erosão). O SPD, nessa perspectiva, é uma tecnologia de ciclagem: ele cria condições para que o sistema use melhor o que tem.

A quarta relação é biodiversidade–regulação. SPD não é somente “plantar sem arar”; o coração do sistema é a rotação e, idealmente, a diversificação com plantas de cobertura. Diversidade de espécies é diversidade de funções: raízes com arquiteturas diferentes exploram camadas distintas; algumas plantas descompactam biologicamente; outras reciclavam nutrientes; outras protegem o solo em períodos críticos. Além disso, diversidade tende a estabilizar populações de pragas e doenças ao reduzir monocultivos contínuos e oferecer habitat a inimigos naturais. Assim, o SPD pode ser entendido como um método de reduzir dependência de “controle” e aumentar capacidade de “regulação” do sistema.

Mas é preciso dizer com clareza: existe SPD “de nome” e SPD “de relações”. Quando o plantio direto é praticado com baixa rotação, pouca cobertura, alta compactação, tráfego desordenado e uso excessivo de herbicidas como solução para todo problema, a rede ecológica não se recompõe. O solo pode ficar “intacto” na aparência, mas funcionalmente empobrecido: infiltra pouco, encharca ou seca rápido, tem baixa vida, baixa porosidade efetiva e alta vulnerabilidade a extremos climáticos. Isso não é agricultura de relações; é apenas a ausência do arado, sem a presença dos princípios.

Por isso, pensar o SPD como agricultura de relações exige um olhar orientativo: A) Cobertura permanente, com metas reais de palhada e cobertura viva ao longo do ano; B) Rotação planejada, com diversidade funcional e não apenas “troca de cultura”; C) Tráfego e compactação sob controle, com diagnóstico (trincheira, penetrômetro, observação de raízes) e correções físicas/biológicas; D) Nutrição integrada, equilibrando correções e adubações com incremento de carbono e biologia; E) integração com a paisagem, protegendo áreas lindeiras, nascentes, APPs, corredores e áreas úmidas, pois a água e a biodiversidade não respeitam cercas.

No fim, chamar o SPD de agricultura de relações é um convite ético e técnico: substituir a ideia de “dominar o solo” pela ideia de cuidar da rede que sustenta o solo. A produtividade deixa de ser um evento obtido por força e passa a ser uma consequência de coerência ecológica. Em um mundo de clima instável, o SPD de relações não é apenas conservação; é estratégia de permanência, produzir hoje sem quebrar os vínculos que garantem produzir amanhã.