Produtividade da soja cresce acima de 11 pontos percentuais a cada avanço nos níveis de manejo do solo
Por Sílvia Zoche Borges, Embrapa Agropecuária Oeste, e Gabriel Faria, Embrapa Agricultura Digital
Pesquisadores da Embrapa Agropecuária Oeste (MS) validaram, em condições reais de campo, a eficiência da metodologia Zoneamento Agrícola de Risco Climático - Níveis de Manejo (ZarcNM). Os resultados evidenciam uma relação linear entre a qualidade do manejo do solo e o desempenho produtivo da soja. Para cada nível de avanço no manejo conquistado pelo produtor, observa-se um aumento médio de 11,1% na produtividade relativa da cultura. A metodologia classifica os talhões (unidades de cultivo) em quatro níveis de manejo – NM1 (menor qualidade) a NM4 (maior qualidade).
A pesquisa foi conduzida em um experimento de longa duração instalado há 30 anos no município de Dourados (MS) e analisou 28 safras consecutivas de soja , entre 1998 e 2026. Ao todo, mais de 4,3 mil pontos georreferenciados foram avaliados. Nesses pontos, ao longo dos anos foram registrados valores de análises químicas, da cobertura do solo e da produtividade dos cultivos, o que possibilitou aplicar a classificação dos níveis de manejo (NM) e relacioná-la às produtividades da soja em cada ponto e safra.
O trabalho comprova que o manejo do solo é importante para determinar o sucesso da produção de soja. Áreas onde são adotadas práticas conservacionistas apresentam maior produtividade, enfrentam melhor os períodos de estiagem e são menos vulneráveis a riscos de perdas, o que confirma a relevância da conservação do solo para a sustentabilidade da agricultura.
O pesquisador Júlio Cesar Salton, da Embrapa Agropecuária Oeste, reforça que a forma como o solo é manejado influencia diretamente a capacidade das lavouras de suportar períodos de deficiência hídrica. "Solos bem manejados armazenam mais água, oferecem melhores condições ao desenvolvimento das raízes e tornam a cultura da soja mais resistente às oscilações climáticas", afirma.
Avaliação de risco climático
O NM1 representa sistemas de menor qualidade, geralmente associados ao preparo convencional, ao monocultivo da soja e à degradação gradual do solo. Já o NM4 corresponde ao nível mais elevado, caracterizado por práticas conservacionistas, como o sistema plantio direto (SPD) e a integração lavoura-pecuária (ILP). Na prática, quanto maior o nível de manejo, maior a capacidade do solo de funcionar como uma espécie de reservatório natural de água, reduzindo os efeitos provocados pelos veranicos – períodos sem chuvas que ocorrem em plena estação chuvosa, frequentes em Mato Grosso do Sul. |
Lavoura de soja com reduzida cobertura de solo - Foto Júlio Cesar Salton/Embrapa
Modelos de produção
A validação do ZarcNM foi realizada com base em três modelos distintos de produção agrícola. O primeiro correspondeu ao preparo convencional, caracterizado pelo monocultivo da soja e pelo revolvimento constante do solo por meio de gradagens (preparo do solo que ocorre com o uso de grades de discos antes da semeadura).
O segundo envolveu o sistema plantio direto, no qual o solo permanece sem revolvimento e ocorre a rotação de diferentes culturas ao longo dos anos.
O terceiro avaliou a integração lavoura-pecuária, modelo em que a soja é alternada com pastagens, o que promove melhoria das condições físicas, químicas e biológicas do solo.
Os pesquisadores analisaram indicadores relacionados a atributos químicos, cobertura do solo, diversidade de culturas e tempo sem revolvimento do solo.
Avanço no manejo, maior produtividade
A pesquisa mostra que, para cada nível de qualidade do manejo conquistado pelo produtor – por exemplo, transicionar do NM2 para o NM3–, ocorre aumento médio de 11,1% na produtividade relativa. As médias obtidas durante as 28 safras foram expressivas, com produtividade relativa de 44,0% no NM1 ; de 55,1% no NM2; de 66,2% no NM3 ; e de 77,2% no NM4.
Ao longo do período avaliado, a produtividade variou bastante como ocorreu na região de Dourados, com valores, na maioria das vezes, oscilando entre duas e cerca de 90 sacas por hectare, resultado da interação entre a ocorrência de chuvas, o momento e a duração de veranicos e as práticas de manejo do solo.
Nos anos mais favoráveis, algumas áreas ultrapassaram 80 sacas por hectare. Em contraste, durante eventos climáticos extremos, sistemas conduzidos sob preparo convencional chegaram a registrar perda total da produção.
"O estudo comprova que investir na qualidade do manejo significa reduzir riscos, aumentar a estabilidade produtiva e preparar o sistema para enfrentar eventos climáticos adversos", destaca Salton.
Lavoura de soja com boa cobertura de solo - Foto Júlio Cesar Salton/Embrapa
Seis indicadores
Para enquadrar cada área entre os níveis NM1 e NM4, são utilizados no ZarcNM seis indicadores considerados essenciais para avaliar a qualidade do manejo: o tempo sem revolvimento do solo, a quantidade de cobertura vegetal existente antes da semeadura, a saturação de bases na camada superficial, o teor de cálcio e a saturação por alumínio nas camadas mais profundas e a diversidade de cultivos nos três últimos anos agrícolas.
Segundo os pesquisadores, sistemas baseados em monocultivo tendem a permanecer nos níveis inferiores, enquanto áreas conduzidas com rotação de culturas e integração lavoura-pecuária alcançam mais facilmente os níveis superiores.
Um dos aspectos destacados pela pesquisa foi a importância da diversidade de culturas. O indicador considera o histórico dos três últimos anos agrícolas, avaliando se houve alternância de espécies vegetais ou predominância de monocultivo. “Essa diversidade favorece a melhoria da estrutura física do solo, aumenta a atividade biológica, amplia a infiltração de água e contribui para a formação de um ambiente mais favorável ao crescimento das raízes. Como consequência, as plantas conseguem explorar camadas mais profundas do perfil do solo, aumentando sua capacidade de suportar períodos de estiagem”, explica Salton.
Os resultados mostram que os maiores benefícios do manejo conservacionista aparecem em anos de déficit hídrico moderado. Nessas condições, áreas classificadas como NM3 e NM4 mantiveram níveis significativamente superiores de produtividade em comparação aos sistemas convencionais.
Mesmo assim, o estudo ressalta que existem limites impostos pelas condições climáticas. “Na região centro-sul de Mato Grosso do Sul, a ocorrência de veranicos frequentes e a baixa capacidade de retenção de água dos solos têm historicamente comprometido o rendimento da cultura, como nas safras 2003/04, quando a precipitação foi bastante reduzida (entre 150 mm e 200 mm), e 2020/21, em que as perdas foram expressivas, com o menor volume de chuva de toda a série de registros (inferior a 100 mm)”, relata o pesquisador Carlos Ricardo Fietz com base em dados históricos do Guia Clima, sistema de monitoramento agroclimático da Embrapa Agropecuária Oeste.
Enquanto áreas conduzidas sob manejo convencional chegaram à produção nula em alguns casos, sistemas conservacionistas conseguiram reduzir parcialmente os prejuízos. "O manejo adequado não elimina completamente os efeitos de uma seca extrema, mas aumenta significativamente a capacidade da lavoura de enfrentar déficits hídricos moderados e minimiza o risco de perdas severas", ressalta Salton.
Impactos podem alcançar crédito e seguro rural
Além dos benefícios agronômicos, a validação do ZarcNM pode apoiar decisões técnicas e políticas públicas voltadas ao setor agropecuário, pois a metodologia permite identificar o risco climático associado à qualidade do manejo de forma mais precisa. “Isso contribui para o acesso mais justo ao seguro agrícola ao considerar atributos de manejo além da textura da terra. Ao investirem na conservação do solo, os produtores apresentam menor probabilidade de perdas decorrentes da seca”, diz a pesquisadora Michely Tomazi.
Segundo dados de 2022 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), 80,5% dos sinistros registrados em Mato Grosso do Sul foram relacionados à deficiência hídrica. “O estudo demonstra que práticas como o sistema plantio direto e a integração lavoura-pecuária deixam de ser apenas recomendações técnicas e passam a constituir instrumentos concretos para ampliar a segurança produtiva, econômica e ambiental da soja em Mato Grosso do Sul e em outras regiões produtoras do País”, conclui Salton.
Equipe da pesquisa
|
Bom manejo traz maior subvenção no seguro
O ZarcNM está disponível, em caráter experimental, para a safra de soja nos estados da região Sul e no estado do Mato Grosso do Sul; e, para a segunda safra de milho, no Paraná e em Mato Grosso do Sul. Os agricultores que participarem terão subvenção diferenciada na contratação do seguro agrícola por meio do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). Na safra de soja, talhões classificados no NM4 terão subvenção de 40%, enquanto no NM3 a subvenção será de 35% e no NM2, de 30%. Os talhões no NM1 terão a subvenção padrão do programa, de 20%. Os agricultores que quiserem participar devem buscar os operadores credenciados, que podem ser consultados na página sobre o tema. O primeiro passo é realizar análise de solo. Os dados serão inseridos pelo laboratório no Sistema de Informações de Níveis de Manejo (SiNM). Na sequência, o operador de contrato, que pode ser uma seguradora, banco ou cooperativa, irá inserir os dados do produtor e da fazenda e acionará um operador de geoprocessamento para levantamento das demais informações. Com base nos dados, o sistema calcula e classifica o nível de manejo. Este é o segundo ano que o ZarcNM é testado. Na safra 2025/2026 a experiência piloto foi feita apenas com a cultura da soja, no Paraná. A expectativa é que a iniciativa se expanda gradualmente para outras regiões e outras culturas. |










