Entidades lançam Carta de Brasília pela Agricultura Regenerativa

Da Redação FEBRAPDP

Entidades lançam Carta de Brasília pela Agricultura Regenerativa
Documento construído coletivamente durante o 20º ENSPD e 3º EMSPD reúne entidades brasileiras e internacionais em torno de um conceito comum – Foto: Divulgação FEBRAPDP

Quando o termo "Agricultura Regenerativa" começou a ganhar os holofotes do agronegócio mundial, algo incomodava pesquisadores e produtores que há décadas dedicam suas vidas ao manejo conservacionista do solo. O desconforto não vinha do conceito em si, mas do uso indiscriminado que se fazia dele. Empresas se apropriavam da expressão como selo verde para produtos, esvaziavam seu significado técnico e, no limite, ameaçavam desconectar a regeneração do solo daquilo que sempre foi seu fundamento mais sólido: o Sistema Plantio Direto.

Foi para pôr fim a essa confusão — e, mais do que isso, para estabelecer um norte comum — que nasceu a Carta de Brasília. O documento, redigido a muitas mãos durante o 20º Encontro Nacional do Sistema Plantio Direto e o 3º Encontro Mundial do Sistema Plantio Direto, realizados em Brasília no início de julho, representa um marco.

"A Carta de Brasília nasce numa construção de pesquisa, de instituições, de entidades, de pessoas envolvidas com agricultura", afirma Maira Lelis, presidente da Federação Brasileira do Sistema Plantio Direto (FEBRAPDP). "O principal objetivo é consolidar um conceito claro, científico e aplicável de Agricultura Regenerativa." Pela primeira vez, um conjunto tão diverso de instituições científicas, entidades de produtores e organizações internacionais se uniu para cravar, preto no branco, o que é — e o que não é — Agricultura Regenerativa.

E a mensagem central não poderia ser mais direta: não há Agricultura Regenerativa sem Sistema Plantio Direto bem feito, com todos os seus princípios aplicados em plenitude. O que pode soar como obviedade para quem está no campo, na prática, se mostrou uma necessidade urgente diante da cacofonia conceitual que tomava conta do setor.

 

O incômodo

Rafael Fuentes, diretor da FEBRAPDP, não esconde o que motivou a empreitada. "Esse movimento para padronizar o conceito de Agricultura Regenerativa surgiu até de um aparente desconforto com o que a utilização do termo estava gerando", conta. "Principalmente empresas, objetivos comerciais começaram a se apropriar desse termo. Supostamente substituição ao que estava sendo conceituado como agricultura sustentável. E as terminologias costumam ser substituídas de forma a atender novos interesses."

A seu ver, existe fundamento sólido na Agricultura Regenerativa — especialmente nos seus cinco princípios, que dialogam diretamente com a agricultura conservacionista praticada mundialmente. "São convergentes com o que o nosso Sistema Plantio Direto, com a agricultura conservacionista, que é uma terminologia utilizada mundialmente para aquele tipo de agricultura sustentável que se utiliza dos princípios de não revolvimento do solo, cobertura permanente do solo e biodiversidade através da rotação de culturas", explica. E arremata: "Todos esses termos são convergentes com a questão principal da Agricultura Regenerativa, que é ter um solo saudável."

A decisão de agir foi tomada um ano antes do evento, durante um seminário do Instituto Fórum do Futuro, em 2025. A FEBRAPDP percebeu que seria "totalmente inoportuno" que as instituições sérias se digladiassem em torno de definições enquanto o mercado seguia usando o termo a seu bel-prazer. Melhor seria construir um consenso. E foi exatamente isso que fizeram.

"O tema Agricultura Regenerativa ou sistema Plantio Direto como base para Agricultura Regenerativa foi estabelecido como tema central do nosso 20º encontro nacional", relembra Fuentes. O que veio depois superou as expectativas: "Nós fomos surpreendidos com a profundidade que esse movimento alcançou." Com a presença de agricultores e profissionais do Reino Unido, Argentina, Espanha e Itália, o consenso que se pretendia nacional ganhou escala global. "A carta acabou incorporando uma visão internacional que superou totalmente nossas expectativas."

Fio condutor

Se o desconforto foi a faísca, Marie Bartz foi quem ajudou a transformá-lo em luz. Presidente da Comissão Técnico-Científica da FEBRAPDP, ela assumiu a tarefa de conduzir o Workshop que daria origem ao documento — e depois compilar as contribuições, sistematizar os posicionamentos e coordenar as rodadas de validação que resultaram no texto final.

"Em um momento em que o termo 'Agricultura Regenerativa' vem sendo utilizado com diferentes sentidos, entendemos que era necessário ir além de uma abordagem meramente conceitual ou mercadológica", diz. "Precisamos esclarecer o que efetivamente caracteriza um sistema regenerativo, quais processos devem ser promovidos e, sobretudo, quais resultados precisam ser demonstrados."

A provocação original, revela Marie, veio de John Landers, figura histórica do Plantio Direto no Brasil, que a instigou a promover um debate mais aprofundado sobre o significado real da Agricultura Regenerativa. Dali em diante, o processo foi meticuloso.

"Participaram diretamente desse processo representantes da FEBRAPDP, da Embrapa, do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical da Universidade de São Paulo, do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná, do Instituto Agronômico de Campinas, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, do Grupo Associado de Agricultura Sustentável e do Instituto Fórum do Futuro, além de agricultores e representantes de organizações internacionais ligadas ao Sistema Plantio Direto e à Agricultura Conservacionista."

O texto-base passou por diversas rodadas de leitura, discussão e complementação. As entidades puderam se manifestar, sugerir ajustes e contribuir. "Portanto, não se trata de um texto produzido de forma isolada, mas do resultado de um processo de construção coletiva e participativa que reuniu a experiência prática dos agricultores, o conhecimento científico, a extensão rural, a visão institucional e a articulação internacional", enfatiza Marie.

Publicada em português, espanhol e inglês, a Carta de Brasília traz o respaldo de um arco impressionante de signatários: FEBRAPDP, Embrapa, CCarbon/USP, IDR-Paraná, IAC, UTFPR, GAAS, Instituto Fórum do Futuro, AAPRESID, CAAPAS e European Conservation Agriculture Federation (ECAF).

 

O que a Carta diz

Maira fala com a clareza de quem sabe que está ajudando a fincar uma estaca no chão movediço das terminologias da moda. "Mas mais do que definir um conceito, a carta estabelece uma direção que hoje já é uma direção muito clara, mas que a gente precisa para que realmente aconteça numa amplitude", afirma.

Esse fundamento tem pilares inegociáveis: mínima perturbação do solo, cobertura permanente e diversificação biológica. Mas a Carta vai além da definição técnica. Ela reconhece o solo como sistema vivo e como principal patrimônio produtivo do agricultor — um patrimônio que, se bem cuidado, reverbera na qualidade da água, na biodiversidade, no sequestro de carbono, na resiliência climática e até na rentabilidade da lavoura.

Marie reforça: "A Carta também reconhece o solo como sistema vivo e como principal patrimônio produtivo do agricultor, relacionando sua saúde à produção de alimentos, à conservação da água, à biodiversidade, ao carbono, à resiliência climática, à produtividade, à rentabilidade, à autonomia e ao conceito de Uma Só Saúde."

O documento deixa claro que produtividade e regeneração precisam avançar juntas — e que isso só se comprova com indicadores mensuráveis. Nada de discurso vazio.

"Não é possível fazer isso apenas com discursos, mas com conhecimento, diversidade, raízes, cobertura, manejo adequado e pessoas comprometidas em cuidar desse patrimônio", sintetiza Marie.

Veja aqui a íntegra da Carta de Brasília

O futuro começa agora

Se a Carta de Brasília fosse apenas uma declaração de princípios, já teria cumprido um papel relevante. Mas Maira mais longe.

"O próximo passo é transformar essa carta em referência para a construção de políticas públicas, de programas de capacitação, de pesquisa, de inovação, de programas de investimentos e ampliar esse diálogo com o governo, com instituições, e reforçar a necessidade de desenvolver indicadores científicos claros que permitam a gente receber benefícios sobre essas práticas", projeta.

Perguntada sobre o que sente diante do caminho que se descortina, a presidente da FEBRAPDP não hesita: "E o que eu penso é um sentimento de confiança, mas principalmente de muita responsabilidade."

Confiança porque vê diferentes instituições caminhando juntas, do campo à academia, do Brasil à Europa. Responsabilidade porque a Carta não representa um ponto de chegada.

"Nós temos o compromisso de transformar ações concretas que fortaleçam o Sistema Plantio Direto, que ajuda o produtor. E muito mais do que isso, que a gente possa ter esse reconhecimento dessa agricultura responsável, resiliente, que já acontece dentro do nosso sistema", conclui Maira.

O recado está dado. Com a Carta de Brasília, o Sistema Plantio Direto deixa de ser apenas uma técnica conservacionista para se afirmar como a espinha dorsal de uma agricultura que regenera, produz e se prova com métricas. O desafio, agora, é fazer com que o consenso saia do papel e se enraíze — literalmente — no solo de cada propriedade.