'O sistema plantio direto é uma filosofia de produção'

Por Wilhan Santin, Globo Rural

'O sistema plantio direto é uma filosofia de produção'
Maira Lelis, a primeira mulher a comandar a FEBRAPDP desde a fundação da entidade, em 1992 — Foto: Arquivo Pessoal

Maira Lelis passou os primeiros anos de sua infância na fazenda da família, em Guaíra, município do interior de São Paulo. Quando chegou à idade escolar, ela, os pais, o irmão e a irmã mudaram-se para a cidade, onde se casou, aos 17 anos, e se formou em pedagogia. Aprovada em concurso público da prefeitura, tornou-se professora, e, por mais de dez anos, seu local de trabalho foi a sala de aula, sem participar diretamente das atividades na propriedade rural.

Em abril de 2014, a família pediu a Maira para que voltasse à fazenda, já que o pai, Adnaer Barros Lelis, estava com problemas de saúde, e o irmão, José Eduardo Lelis, agrônomo, tinha compromissos profissionais na capital paulista.

A professora virou aluna, aprendeu e implantou práticas conservacionistas, como o sistema plantio direto. Em março deste ano, ela assumiu a presidência da Federação Brasileira do Sistema Plantio Direto (FEBRAPDP), sucedendo a agricultores icônicos, como Herbert Bartz, Franke Dijkstra e Manoel Henrique Pereira.

Nesta entrevista à Globo Rural, Maira, a primeira mulher a comandar a FEBRAPDP desde a fundação da entidade, em 1992, relatou sua trajetória e os desafios na entidade, que projeta a adoção do plantio direto em 46 milhões de hectares no país neste ano.

Globo Rural: Como foi trocar as salas de aula pelas lavouras?
Maira Lelis: Quando cheguei à fazenda, eu era uma folha em branco. Sabia quais eram as culturas, mas não sabia nada sobre manejo, química do solo, cultivares. Tudo isso eu fui aprendendo com o trabalho. Meu irmão, que estava em São Paulo, me deu autonomia, e isso me fez crescer. Minha primeira empreitada foi revisar uma colheitadeira. Eu tinha um monte de orçamentos e não sabia onde ficava cada peça, mas aprendi.

GR: Você teve que aprender rapidamente a fazer a gestão da propriedade?
Lelis: Sim. Saí do papel de professora para ser aluna. Tive que buscar conhecimento, e continua assim, todos os dias. Até hoje, leio muito, participo de cursos, simpósios, absorvo do meu irmão, do meu filho, Pérsio, que é agrônomo, de professores e pesquisadores que passam pela fazenda. Cresci enquanto pessoa, e a fazenda também cresceu muito com esses profissionais.

GR: Qual foi a primeira lavoura em que você efetivamente trabalhou?
Lelis: A propriedade estava com milho plantado quando cheguei, mas era um milho de campo de sementes. Um consultor, que foi também um grande professor, sugeriu que eu andasse com uma agenda e anotasse tudo. A primeira cultura em que atuei foi a de feijão. Meu irmão me deu um livro que era um dos melhores sobre feijão. Mas a teoria é muito diferente da prática. Depois que comecei a entender o processo, entendi o que estava no livro. Assim fui fazendo, aliando a teoria à prática.

GR: Você estava em um ambiente em que os homens eram a maioria e tinha que fazer perguntas a todo momento. Como conquistou o respeito da equipe?
Lelis: Não tive problemas. Converso bastante, troco informações. Hoje, somos uma fazenda com selo de soja sustentável, para atender ao mercado europeu. A proteína da nossa soja será matéria-prima de ração para salmão. Os funcionários são todos homens e compraram a ideia da sustentabilidade e da qualidade. Eles entenderam o processo e abraçaram tudo isso. Meu irmão também foi muito importante em todos os momentos.

GR: Por que você se preocupou tanto com a saúde do solo?
Lelis: Nossa família produz alimentos há mais de quatro décadas, então, sempre nos preocupamos com a terra. (Mas) os caminhos são traçados por Deus, as coisas vão acontecendo sem a gente esperar. Fui tomando a frente disso. Meu filho diz que, por eu ter sido professora, a minha didática é fácil de entender. Fazer plantio direto sem revolver o solo já era (um caminho) bem definido desde a época do meu avô Antônio. Ele enfrentou o mato. Nós cuidávamos do solo plantando o milheto; já utilizávamos insumos biológicos. Mas começamos a entender que seria possível aperfeiçoar o processo quando tivemos problemas com patógenos, principalmente no feijão. Tivemos que procurar materiais resistentes a um fungo e começamos a estudar a parte biológica do solo. Em 2017, veio o professor Ademir Calegari à fazenda, como consultor, e começamos com as rotações de culturas. Em três anos agrícolas, um talhão chega a receber mais de 20 raízes diferentes.

GR: Vocês evoluíram do plantio direto para o sistema plantio direto?
Lelis: Exatamente. Não é só plantar sobre a palha da cultura anterior, é você cuidar do seu sistema com diversidade, porque, se for estudar cada uma dessas plantas, verá o aporte que elas trazem de nitrogênio, fósforo, potássio. Chegamos a ficar três safras de soja sem fazer adubação com potássio, pois as plantas que passam pelo talhão reciclam nutrientes e são alimento para os microrganismos. Com isso, existe mais vida no solo.

O estoque de carbono em um solo produtivo com boas práticas se assemelha ao que temos em uma área de mata nativa”

GR: Você se apaixonou pelo solo?
Lelis: Totalmente. É um caminho sem volta. Quem cuida do solo colhe resultados e consegue até diminuir custos. Nós temos métricas de tudo. Conseguimos diminuir (as aplicações de) fertilizantes, inseticidas. Solo saudável, vivo, vai resultar em uma planta saudável, porque ela é um ser vivo. Aprendi com a terra cuidando dela. A nova revolução para o produtor é entender seu solo, entender os patógenos. Um exemplo: plantamos crambe, que é uma espécie de planta para adubação, mas também serve como biocombustível, inclusive com potencial para a aviação. Além disso, descobrimos que essa planta funciona como um inseticida natural, que repele insetos. Assim, vamos aprendendo a cada safra. Há plantas que são herbicidas naturais.

Maira é produtora em Guaíra, interior de São Paulo — Foto: Arquivo Pessoal

GR: Como você passou a fazer parte da Federação Brasileira do Sistema Plantio Direto?
Lelis: Em 2022, fui ao 18º Encontro Nacional do Sistema Plantio Direto, que aconteceu em Foz do Iguaçu (PR), a convite do professor Galegari, porque a gente fazia o que ele ensinava e dava resultado. A produção aumentou. Tive a oportunidade de fazer uma palestra no evento, e as pessoas começaram a querer conhecer nossa experiência. Em 2024, no 19º Encontro Nacional, em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, participei em um dia de campo, na trincheira. Algum tempo depois, Jonadan Ma, que estava na presidência da federação, foi à nossa fazenda com um repórter inglês que tinha interesse em conhecer as práticas sustentáveis da agricultura brasileira. Andando em áreas onde pouco antes havia sido colhido milho doce, aquele que vai para as latinhas (de conserva), Jonadan arrancava o que tinha sobrado de um pé de milho e surgiam minhocas. Depois, em outro talhão, ele arrancava outro pé e saíam mais minhocas. O convite para que eu assumisse a presidência da entidade veio depois do encontro.

GR: Qual será o seu maior desafio na liderança da FEBRAPDP?
Lelis: A terra é um presente que Deus deu ao produtor rural para que cumpra a missão de alimentar o mundo. A gente coloca uma semente no solo, ela germina, cresce e se torna alimento, daí a importância de cuidar do solo. Queremos mostrar a todos que temos um agro responsável e sustentável. Para isso, precisamos trazer mais parceiros que nos ajudem a fomentar e levar conhecimento a todos os agricultores brasileiros. Na federação, temos uma comissão técnico-científica de excelência. Vamos fazer com que o conhecimento se dissemine.

GR: Como é ser a primeira mulher a presidir a entidade?
Lelis: É muita responsabilidade. A competência está no que a gente faz, e não no gênero. Aceitei assumir a função porque a minha família está comigo e temos união na entidade.

GR: Muitos agricultores plantam sobre a palhada da cultura anterior, mas fazem a famosa “dobradinha”, ou sucessão de culturas, com soja no verão e outra lavoura no inverno, geralmente milho ou trigo, sem diversificar as culturas. Isso é um problema?
Lelis: Sim, é um problema. O sistema plantio direto precisa de rotação de culturas. Precisamos fomentar, em cada região, encontros, trocas de experiências. Não é difícil, mas tudo o que a gente faz dentro da produção agrícola precisa de conhecimento e resiliência. Cada região tem a sua particularidade, e cada produtor pode ter a sua. Precisamos mostrar experiências que dão certo. Na Bahia, por exemplo, há produtores que fazem um consórcio soja-braquiária, que já deixa a área pronta para a “safra do boi” depois da colheita de grãos. Hoje, há plantas de cobertura nas entrelinhas do café e da cana-de-açúcar, que são culturas perenes. O desafio não é só aumentar o número de produtores que fazem plantio direto, mas convencer a todos a fazer o sistema corretamente e produzir mais em áreas que já temos disponíveis. E tem a questão ambiental. O estoque de carbono em um solo produtivo com boas práticas se assemelha ao que temos em uma área de mata nativa.

GR: Qual a principal mensagem que você quer transmitir aos agricultores?
Lelis: Assumir a presidência da federação é, antes de tudo, assumir um compromisso com o futuro das próximas gerações. O sistema plantio direto não é apenas uma técnica: é uma filosofia de produção, de quem respeita o solo, preserva a água, fortalece a sustentabilidade no campo e prova que é possível produzir mais. Hoje, com muita responsabilidade, temos produtores que já conseguem mensurar esses resultados, com um solo mais vivo e resiliente. Fica o convite para quem ainda não conhece esse sistema, que consiste em trabalhar a diversidade de plantas, para que venha até a gente para criar essa conexão. Precisamos unir todos – produtores rurais, técnicos, instituições – para fortalecer o que transformou o Brasil em uma referência mundial em produtividade e sustentabilidade.

Matéria originalmente publicada na Revista Globo Rural