Plantas de cobertura ganham espaço na agronomia e transformam lavouras, paisagens e pastagens
Da Redação A Crítica
O solo voltou ao centro das atenções no agronegócio brasileiro. Diante de eventos climáticos extremos, períodos prolongados de estiagem e maior pressão por eficiência produtiva, práticas de manejo do solo que preservam sua estrutura deixaram de ser apenas uma alternativa sustentável para se tornarem uma necessidade técnica.
Nesse cenário, o uso de plantas de cobertura se consolida como um dos principais elos entre a agronomia moderna, a valorização da natureza e o fortalecimento da pecuária.
Nos últimos anos, dados de instituições de pesquisa agropecuária, como a Embrapa, indicam crescimento consistente da adoção de sistemas conservacionistas no Brasil, especialmente em áreas de grãos que passam por rotação de culturas com pastagens. O avanço dessas práticas responde a um desafio real: manter a produtividade agrícola mesmo em solos expostos, compactados ou com perda de matéria orgânica acumulada ao longo de ciclos intensivos de cultivo.
A agronomia por trás da proteção do solo
O uso de plantas de cobertura se tornou uma das principais estratégias para proteger o solo agrícola entre safras, reduzindo a erosão, melhorando a infiltração de água e estabilizando a temperatura do solo. Além disso, essas plantas contribuem diretamente para o aumento da matéria orgânica, fator determinante para a fertilidade do solo e a capacidade produtiva a médio e longo prazo.
Em áreas agrícolas do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, a prática tem sido incorporada tanto em sistemas de plantio direto quanto em sistemas integrados. A cobertura vegetal atua como uma barreira física contra o impacto das chuvas intensas e, ao mesmo tempo, cria um ambiente mais favorável à atividade biológica do solo. Assim, o que antes era visto apenas como um intervalo entre culturas passa a ser encarado como uma etapa produtiva do sistema agrícola.
Essa mudança de visão reflete uma transformação mais ampla no campo brasileiro, em que a eficiência não está apenas no rendimento imediato da lavoura, mas na capacidade do solo de sustentar ciclos sucessivos de produção sem perda de qualidade.
Natureza como aliada do sistema produtivo
Ao mesmo tempo em que atendem às demandas da agronomia, as plantas de cobertura desempenham um papel essencial na recuperação dos processos naturais do solo. A presença constante de vegetação favorece a vida microbiana, estimula a formação de agregados do solo e reduz a exposição direta da terra ao sol e ao vento.
Esse manejo cria paisagens agrícolas mais equilibradas, com maior diversidade vegetal e melhor integração com o ambiente natural. Em muitas propriedades, áreas que antes apresentavam solo nu passam a exibir cobertura verde durante todo o ano, reduzindo o estresse térmico e favorecendo a retenção de umidade. Esse efeito se reflete não apenas na cultura seguinte, mas em todo o ecossistema produtivo da fazenda.
A lógica se aproxima daquela aplicada na jardinagem ecológica, onde o solo protegido e a vegetação funcional cumprem múltiplas funções ao mesmo tempo. No campo, essa abordagem amplia a resiliência agrícola e reforça a ideia de que produtividade e conservação ambiental são conceitos complementares.
Pastagens mais eficientes começam no manejo do solo
Na pecuária, os reflexos desse manejo são cada vez mais evidentes. Pastagens implantadas sobre solos bem estruturados, protegidos por plantas de cobertura nos ciclos anteriores, apresentam maior uniformidade, melhor desenvolvimento radicular e maior resistência a períodos de seca.
A formação do pasto ocorre de maneira mais rápida e eficiente, reduzindo falhas de estabelecimento e diminuindo a necessidade de intervenções corretivas. Com maior retenção de água e melhor disponibilidade de nutrientes, o capim mantém desempenho mais estável ao longo do ano, o que se traduz em melhor aproveitamento da forragem e maior previsibilidade na produção pecuária.
Além disso, sistemas integrados que combinam lavoura, cobertura vegetal e pecuária contribuem para a recuperação de áreas degradadas, um dos principais desafios da atividade pecuária no Brasil. Ao encurtar o tempo necessário para a recuperação do solo e do pasto, o produtor reduz custos de produção e aumenta a eficiência do uso da terra.
Reportagem originalmente publicada no site de A Crítica.









