Uma necessidade premente

Afonso Peche Filho, pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas - IAC

Uma necessidade premente
Foto: Antônio Tuca Flores – Naviraí, MS

A agricultura brasileira vive uma encruzilhada histórica que a obriga a rever seus fundamentos. De um lado, consolidou-se como potência global na produção de alimentos e fibras; de outro, tornou-se refém de um modelo que desgasta o solo, simplifica a biodiversidade e aumenta a vulnerabilidade climática. Nesse cenário, falar em necessidade premente não é retórica alarmista, mas o reconhecimento de que a sobrevivência do setor e da sociedade depende de uma reorientação imediata. O que está em jogo é a capacidade de a agricultura sustentar-se sem esgotar os recursos naturais que a alimentam.

O solo, base física e biológica da produção, ilustra essa urgência. Décadas de revolvimento intenso, adubação química solúvel e aplicação de agrotóxicos enfraqueceram sua estrutura, reduziram a matéria orgânica e comprometeram a vida microbiana. A consequência é um ciclo vicioso: cada vez mais insumos externos são necessários para manter produtividades que antes eram garantidas pela própria dinâmica ecológica. Rompe-se, assim, o equilíbrio entre processos naturais e manejo humano, substituindo a resiliência por dependência. Restaurar esse equilíbrio tornou-se uma necessidade premente, pois sem solo vivo não há agricultura duradoura.

A água, segundo pilar da produção, também denuncia os limites do modelo vigente. A impermeabilização dos solos compactados, a supressão da vegetação ciliar e a expansão desordenada das áreas agrícolas fragilizam a infiltração e reduzem a recarga dos aquíferos. Ao mesmo tempo, o aumento de enchentes e secas coloca em risco a estabilidade da produção e o abastecimento urbano. Se a agricultura não se reconciliar com a lógica hidrológica das paisagens, investindo em conservação do solo, estruturas de recarga, nascentes revitalizadas e reflorestamento das margens dos cursos d’água, não haverá segurança hídrica futura. A gestão comunitária da água não é opção, é exigência de sobrevivência.

No campo biológico, a situação é igualmente crítica. A redução da biodiversidade funcional enfraquece os mecanismos de controle natural de pragas e doenças. A eliminação de insetos benéficos e polinizadores, aliada ao uso indiscriminado de pesticidas, gera desequilíbrios que se traduzem em custos crescentes e instabilidade produtiva. A solução passa por diversificação de cultivos, consórcios, rotação de espécies e estímulo a habitats de inimigos naturais. Mais uma vez, a necessidade premente não é ideológica, mas pragmática: ou se fortalece a biodiversidade, ou se enfrentará um futuro de perdas crescentes.

A dimensão social também precisa ser considerada. O modelo agrícola concentrador, dependente de grandes volumes de capital e insumos, aprofunda desigualdades e fragiliza a autonomia do agricultor. Além disso, verifica-se uma contradição alarmante: quanto mais aumenta a produtividade, menor tende a ser a renda líquida do produtor. Os preços agrícolas, pressionados por cadeias globais de mercado, frequentemente não acompanham os custos de produção, criando um paradoxo em que produzir mais não significa ganhar mais. Multiplica-se, assim, o número de agricultores que, em vez de realizar investimentos para ampliar a sustentabilidade de seus sistemas, sobrevivem administrando dívidas, renegociando financiamentos e adiando melhorias estruturais. Essa realidade social fragiliza não apenas a economia rural, mas o próprio tecido produtivo nacional.

Entre as estratégias mais eficazes para restaurar a base ecológica da agricultura brasileira, destaca-se o Sistema Plantio Direto (SPD), quando praticado em sua forma plena e ecológica. Originalmente concebido como técnica conservacionista, o SPD evoluiu para um verdadeiro sistema regenerativo de funcionalidades ecológicas, pois integra princípios de requalificação da perenidade produtiva das áreas agrícolas.

Ao manter a superfície coberta por palhada e raízes vivas, o SPD cria um ambiente favorável à biota edáfica, estimulando fungos micorrízicos, bactérias fixadoras de nitrogênio e organismos que constroem agregados estáveis. Essa atividade biológica amplia a infiltração e o armazenamento de água, aumenta a matéria orgânica e regula o microclima do solo. O resultado é a restauração da funcionalidade física, química e biológica, pilares de um sistema verdadeiramente sustentável.

Além disso, o SPD reduz a erosão e a emissão de carbono pela mecanização excessiva, contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas e o sequestro de carbono no solo. Quando associado ao uso de plantas de cobertura multifuncionais, bioinsumos, remineralizadores e diversificação produtiva, o sistema transcende a conservação: torna-se uma ferramenta regenerativa, capaz de reconstruir ecossistemas produtivos equilibrados.

O plantio direto agroecológico, portanto, deve ser reconhecido não apenas como técnica agrícola, mas como instrumento de transição para uma agricultura capaz de reconciliar produção e ecologia, um elo entre o manejo racional e o equilíbrio natural.

Ao contrário desse cenário de vulnerabilidade e endividamento, práticas de base agroecológica, que integram saber científico e popular, favorecem a inclusão social, a geração de renda local e a resiliência das comunidades rurais. Investir em assistência técnica participativa, educação agroecológica e políticas públicas que valorizem a conservação ambiental é reconhecer que o equilíbrio social também é um serviço essencial para a agricultura.

Diante desse quadro, a necessidade premente é clara: requalificar a agricultura brasileira em bases ecológicas. Isso significa repensar o uso da terra, valorizar processos biológicos, conservar a água e diversificar sistemas produtivos. Significa também redefinir políticas de incentivo, para que a sustentabilidade seja o centro da estratégia agrícola nacional e não apenas um discurso lateral.

O futuro da agricultura dependerá menos da quantidade de insumos aplicados e mais da qualidade das relações estabelecidas com o solo, a água, a biodiversidade e as pessoas que dela dependem. Reconhecer e agir sobre essa necessidade premente é o primeiro passo para que a agricultura brasileira continue a alimentar o mundo sem trair os fundamentos que garantem a vida.