A necessária gestão de riscos na agricultura brasileira

Por Afonso Peche Filho, pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas - IAC

A necessária gestão de riscos na agricultura brasileira
Soja em SPD - Foto: Paulo Odilon Kurtz/Embrapa

A gestão de riscos na agricultura brasileira deixou de ser um tema “de planilha” para se tornar um requisito de sobrevivência produtiva. Em um país onde a agricultura é motor econômico, mas também opera sob alta variabilidade climática e forte exposição a mercados globais, produzir sem mapear riscos e sem preparar respostas é aceitar perdas recorrentes como se fossem inevitáveis. Gestão de riscos, nesse contexto, é a capacidade de antecipar ameaças, medir probabilidades, priorizar ações e construir planos de prevenção, mitigação e contingência, preservando produtividade, renda, pessoas e patrimônio ambiental.

O primeiro grande bloco de riscos é o do mercado de commodities. A agricultura brasileira participa de cadeias integradas globalmente, com preços influenciados por oferta e demanda internacional, decisões de política monetária, logística, conflitos geopolíticos e oscilações cambiais. Na prática, o produtor é pressionado por uma equação instável: compra insumos muitas vezes dolarizados, vende produto atrelado a cotações voláteis e enfrenta custos internos que nem sempre acompanham o preço de venda. Em momentos de queda de preço ou alta de insumos, a margem desaparece. Em momentos de preço alto, cresce o risco de expansão apressada, superendividamento e escolhas técnicas que priorizam volume imediato, fragilizando o solo e aumentando dependência de insumos. Assim, a gestão de riscos de mercado não é “tentar adivinhar o preço”, mas reduzir vulnerabilidades: planejamento de fluxo de caixa, diversificação de fontes de renda, escalonamento de vendas, critérios técnicos para contratação de crédito, construção de reservas, e, quando aplicável, uso criterioso de instrumentos de comercialização e contratos que protejam parte da receita.

O segundo bloco de riscos se relaciona aos ambientes tropicais. O Brasil produz sob condições que combinam potencial produtivo elevado com desafios ecológicos específicos: alta intensidade de chuvas em parte do ano, calor, ciclos biológicos acelerados, pressão constante de plantas espontâneas, pragas e doenças, além de solos que podem ser naturalmente mais intemperizados e sensíveis à perda de matéria orgânica. Nesse cenário, pequenas falhas operacionais viram grandes problemas. Mobilização excessiva do solo, cobertura insuficiente, tráfego mal manejado de máquinas e ausência de estruturas simples de contenção e infiltração ampliam erosão, compactação e perda de água armazenada, elevando custo e reduzindo estabilidade de produção. O manejo tropical exige que a gestão de riscos esteja ancorada em práticas de base: proteção física do solo com palhada e cobertura viva, diversificação biológica, planejamento do tráfego, correções químicas e orgânicas com critério, e atenção à infraestrutura rural (estradas internas, terraços, bacias, canais vegetados, manutenção de drenos e pontos de escoamento). No trópico, risco não é apenas “não chover”; risco é a água cair com energia e levar embora solo, nutrientes e estrutura.

O terceiro bloco, hoje decisivo, é o das mudanças climáticas e da variabilidade ampliada. O produtor passa a conviver com extremos mais frequentes: ondas de calor, veranicos, chuvas concentradas, tempestades intensas, geadas tardias em certas regiões e mudanças no calendário agrícola. Isso afeta diretamente janelas de plantio, dinâmica de pragas e doenças, eficiência de fertilização, necessidade de irrigação e disponibilidade de água. A gestão de riscos climáticos não se resume a consultar a previsão do tempo; ela pede estratégia estrutural. Significa aumentar a capacidade do sistema de absorver choques: solo com maior infiltração e maior água disponível, paisagem com elementos reguladores (matas, áreas úmidas, corredores), escolha de cultivares e ciclos mais adaptados, escalonamento de plantio, diversificação de culturas e integração de sistemas. A propriedade que investe em resiliência hídrica e biológica transforma clima em variável administrável, não em sentença.

Nesse conjunto, há um ponto transversal: a gestão de riscos na agricultura é, em grande parte, gestão de qualidade. Qualidade de decisão (com registros e indicadores), qualidade de execução (calibração, regulagem, operação no tempo certo), qualidade ecológica (solo, água, biodiversidade) e qualidade financeira (planejamento e reserva). Propriedades que monitoram indicadores simples, umidade do solo, infiltração, estabilidade de agregados, custo por hectare, eficiência de aplicação, incidência de pragas, taxa de falhas operacionais conseguem intervir cedo, quando o custo de correção é menor.

A agricultura brasileira seguirá sendo potência, mas potência sustentável não nasce da coragem de arriscar; nasce da competência de administrar riscos. Em um mundo de commodities voláteis, trópico exigente e clima instável, a gestão de riscos é a ponte entre produtividade e continuidade. Não é burocracia: é prudência técnica, ecológica e econômica, aplicada ao cotidiano da propriedade.